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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Sozinho em Casa

Conto 4


Sozinho em Casa


      A casa era grande, tinha várias entradas: pela garagem, pelo quarto do casal, pela porta da frente e pela dos fundos. O terreno, meio quarteirão, todo cercado, com grades na frente e tela nos fundos e nas laterais. No pátio, via-se um quiosque, piscina, vegetação exuberante. Na divisa dos fundos, havia uma mata e, após esta, uma estrada. Em cada lado, outras casas. A moradia era situada no final da rua, penúltima construção, lado esquerdo de quem nela entrava. A garagem enorme, três carros poderiam ser guardados ali. A porta da garagem ficava próxima à porta principal da casa. Pela garagem poderia se acessar a cozinha ou o escritório, que era à direita, no corredor que levava à enorme sala de estar. Ali residia uma família: pai, mãe e dois filhos adolescentes. O homem trabalhava em outra cidade, vinha para casa, na maioria das vezes, só nos finais de semana. Uma família normal. Rex, o cão da raça pastor alemão, ficava solto pelo terreno e tinha acesso à casa. Era uma maravilha deixar a casa aberta, no verão. A mãe era professora em turno integral, trabalhava em duas escolas. Não havia uma grande preocupação com a segurança. Moravam em uma cidade pequena, quase sem nenhuma violência. Lá, só havia pequenos furtos e muito esporádicos. Um ótimo lugar para se viver e criar os filhos. Moravam naquela casa há cerca de um ano, quando para esta cidade se mudaram. Antes, moraram em Portugal, onde o pai trabalhou. Naquele país luso, nasceram os dois filhos. Os vizinhos eram ótimas pessoas e amigas da família.

      Em uma quinta-feira, tarde de verão. Marcos, sozinho em casa, estava navegando na internet, no computador do escritório. Conversava com amigos no facebook. O barulho de um carro entrando no pátio chamou sua atenção. Pensou quem poderia ser. A mãe estava na escola, a irmã estudando. O pai estava trabalhando e só viria na sexta-feira. Rex, que estava com ele, foi para fora. O veículo parou, a porta abriu e fechou. O garoto ficou com medo. Pegou seu telefone celular e foi para baixo da bancada do computador. Ouviu os passos de alguém entrando na casa. Estranhou que o cão não retornou para junto dele. Num misto de medo e curiosidade, escutou um barulho vindo da cozinha. Sabia que logo sua mãe regressaria. Encheu-se de coragem, levantou- se rapidamente e olhou pela janela. O veículo era um furgão branco. Pensou que deveria ser mais de uma pessoa. Voltou para o esconderijo e mandou uma mensagem, pelo celular, para sua mãe. Relatou o que estava acontecendo e que estava com medo. Agora havia barulho no quarto de seus pais. Já eram 18 horas. Sua mãe, quando recebeu a mensagem, estava saindo da escola entrando em seu carro. Ficou assustada e preocupada. Ligou para a PM. O policial que atendeu a ligação anotou o endereço e os dados da ocorrência e gerou um atendimento. Informou a ela que as duas viaturas estavam atendendo ocorrências no interior e logo uma delas iria à casa dela. A mulher estava aflita, ligou para o telefone de seu esposo. Este não atendeu, ligou outras vezes e nada. Lembrou- se, então, de que o pai de um dos colegas de escola e amigo de seu filho era policial civil e, como seu esposo, trabalhava em uma outra cidade. Quem sabe o pai deste menino poderia estar em casa, pensou. Ligou para o celular deste amigo do filho. Não sabia se a vitura da PM iria logo a sua casa. Seu filho estava lá, precisava de ajuda. Ao atender o celular, o amigo de seu filho informou para ela que seu pai estava em casa. Pediu para falar com ele e relatou para o policial o que estava ocorrendo em sua casa. O homem se solidarizou e disse que iria com ela à casa ver o que acontecia.

      Na casa, assustado, Marcos escutou alguém entrando no furgão e o portão da entrada de carros abrindo. Será que foram embora ou alguém ficou na casa, pensou. Estava escurecendo. Após o veículo sair da propriedade, o portão fechou, era automático. O menino correu para a vegetação espessa que ficava ao lado da divisa da casa à direita. No pátio, Rex o viu e ficou com ele. Quando o policial militar atendeu o telefonema da mãe relatando o que ocorria em sua residência. Estava no prédio da PM um repórter da rádio e do jornal local. Em cidades pequenas, quem é dono da rádio é também do jornal, quase sempre. O PM repassou os dados, via rádio, para as viaturas, do que estava acontecendo na casa de Marcos. O repórter ouviu e se interessou pela história, relatando-a, pelo telefone celular, para o locutor da emissora. Para não perder tempo, pegou o veículo da empresa e correu para a rua onde acontecia o fato. O locutor deu para seus ouvintes, em tom de sensacionalismo, uma breve chamada do acontecimento. Parece que há refens- anunciou o radialista. Enquanto isso, a mãe de Marcos e o policial civil também se deslocavam até a casa dela. No trajeto, a mãe ligava para o celular do filho e nada. Marcos, ao sair, esquecera o celular na casa. Ela tentou outras vezes e ligou para o seu marido e nada de ele atender também. Ela estava aflita. Quando acessaram sua rua, atrás já seguiam duas viaturas da PM e o carro da reportagem. As viaturas estacionaram de frente para sua casa com os faróis acesos. Uma era uma caminhonete com quatro policiais de roupas camufladas e boinas pretas. Na outra, dois policiais com fardamento normal. Marcos, ao ver a movimentação, aliviado, saiu da vegetação. A mãe abriu o portão e ele correu para ela. O policial civil conversou com os militares. O garoto dizia que não sabia se havia alguém na casa ou não. Os policiais decidiram fazer uma revista na moradia. Dois boinas pretas correram pelo pátio para se posicionarem na parte dos fundos. Outros dois se posicionaram estrategicamente nas laterais. O policial civil e dois PMS foram até a casa e entraram. A mãe agora estava preocupada com o marido que não atendia o telefone. Será que ele não fora sequestrado e trazido até a casa. A residência foi revistada e ninguém foi encontrado. Nada parecia estar fora da normalidade. Na rua, começaram a se juntar curiosos. A mãe foi convidada a entrar na casa e conferir se nada estava faltando. Ela olhou tudo e informou que nada faltava. O policial civil lhe perguntou se ela havia conseguido falar com seu esposo. Ela respondeu que não e comentou sua preocupação. Então, o policial lhe perguntou onde ele costumava ir quando estava em casa, quais amigos tinha ali, etc. Ela lembrou- se de que, às vezes, ele vinha mais cedo que de costume e ia até o clube do bairro jogar bola. Os policiais conversaram e resolveram ir até o local. O repórter foi informado de que estava tudo normal. Ficou decepcionado e foi embora. Tudo parecia ser uma grande reportagem. Os policiais comentaram que a família tinha um cão pastor alemão, meio inútil, se a casa foi invadida, ele nada fez. Nem um latido sequer. A mãe disse que o cachorro era manso, meio preguiçoso.


      O policial civil foi com a mulher e o filho dela, as viaturas da PM foram atrás. Ao entrarem no estacionamento do clube, surpresos, avistaram um furgão branco. Todos desceram e foram até ele. As placas eram da cidade onde o esposo da mulher trabalhava. O menino foi até o interior do ginásio e voltou com seu pai. O homem disse que havia deixado seu carro na empresa e decidido vir com o furgão da mesma. Que havia passado em casa e trocado de roupa, colocado o uniforme de seu time e que não havia visto seu filho. Como estava no clube, ele havia deixado seu telefone no veículo. Pai, mãe e filho se abraçaram. Tudo não passara de um pequeno susto e da mente criativa de um menino sozinho em casa, assustado.

domingo, 26 de maio de 2013

Um Outro Olhar da Evolução

Conto 3



Um Outro Olhar da Evolução



      Há milhares de anos. A nave Soyos 10 chega no terceiro planeta deste sistema solar. Kael olha e vê uma pequena esfera azul. Achou este pequeno planeta lindo, muito semelhante ao seu. Há alguns anos, estava, juntamente com sua tripulação, viajando pelo espaço. Sua missão era chegar naquele lugar, certificar a existência de vida, a possibilidade de seu povo explorar e obter o que necessitavam. Seu povo sabia da existência deste lugar há muito tempo. Ele fora incumbido de comandar esta nova expedição. Determinou que seu imediato Jaehl orbitasse esta esfera e coletasse dados do local. Era preciso confirmar se Soyos 1 havia cumprido sua missão, há cerca de mil anos antes. Uma arma poderosa de sua civilização fora usada, antes daquela missão. Foi preciso destruir as criaturas gigantescas que habitavam este planeta e impossibilitaram a exploração. Quando o conselho e os cientistas de seu mundo concluíram que uma exploração neste planeta era segura e necessária, determinaram aquela missão. Sentou e continuou sua admiração. A torre de comando estava agitada. Logo uma pequena parcela de sua tripulação deveria descer. Tinha ao seu comando trezentos tripulantes, entre cientistas, operários e militares. A nave havia sido estabilizada naquela órbita. Dados começaram a serem coletados. Kael começou a interpretar estes dados e tomar ciência da atmosfera. Havia lá oxigênio, tão essencial, água e sinais de vidas, muitos seres por lá andavam. Tudo parecia estar como esperado. Nada daquelas criaturas ameaçadoras e maiores. Pelo visto a Soyo 1 cumpriu com êxito sua missão. Determinou que Mika preparasse a missão de reconhecimento. Ele saiu da torre de comando e foi fazer cumprir a ordem de Kael. Há muito tempo, sua civilização viajava pelos confins do universo. Cientistas iriam descer ao planeta e analisar sua superfície e formas de vidas. Havia a certeza de que ouro, o principal interesse deles, havia naquele lugar, além de outros metais. Sua tripulação teria condições de explorar, catalogar as espécies. A atmosfera era muito parecida com a de seu planeta. O ar era respirável.


      Algum tempo depois, a primeira nave piramidal com cientistas, entre estes Akin, e um pequeno pelotão de soldados, decolou da nave mãe, avançando para o Planeta Azul. Após um voo de reconhecimento da superfície, ela pousou entre dois rios. Quatro pequenos veículos saíram com oito tripulantes cada. Foram avistados por eles várias formas de vida. Uma gerou interesse maior. Foi avistado um bando de seres, que lembravam suas formas, braços, pernas, e andavam quase eretos. Eram menores, pois os exploradores tinham a altura média acima de dois metros. Akin, que estava no carro 1, chamou a nave pelo sistema de comunicação. Ela descreveu para Kael estas criaturas. Deus realmente reina no universo, precisamos de uma para estudo, pediu para o comandante. Ok, matem uma e a estudem, mas apenas uma. Capturar uma viva é arriscado, determinou Kael. O veiculo 1 parou e um soldado desceu. Um tiro certeiro derrubou uma do bando. Dois soldados foram buscá-la. O restante daqueles seres correram para a vegetação. O veículo 2 relatou que havia chegado ao pé de uma montanha e ali havia sido detectado ouro. Todos retornaram à nave piramidal. Lá, foi passado para a nave mãe dados coletados e a descrição do que haviam visto. A criatura morta foi examinada por Akin, cientista biológica da missão. Ela viu que era uma do sexo masculino. Coletou sangue e amostras de DNA, e fez um exame interno deste ser. Ficou extasiada com o que descobriu. Outras naves piramidais chegaram, num total de dez, a maioria trazia trabalhadores e máquinas. Uma mina seria aberta naquela montanha, onde fora detectado ouro. Outros da equipe de Akin vieram junto.

      Akin, a qual conclusão chegaste a respeito do ser estudado? Perguntou Kael. Akin olhou para a tela onde aparecia a imagem do comandante: este ser é incrível, parece muito com nossos ancestrais, como se nós tivéssemos a mesma origem. É claro, eles são primitivos. Se a evolução ocorrer aqui, como em nosso planeta, eles serão como nós daqui a milhares de anos. Possuem traços de DNA semelhantes ao nosso. Tomei conhecimento de que o Conselho determinou a transferência da base do quarto planeta para este, comentou Kael. E acrescentou, pelo visto nossa permanência neste mundo será maior do que a planejada. Vou transmitir os dados do ser que me enviaste para o conselho. Agradeço muito, quero permissão para mais estudo e quem sabe uma manipulação genética, um teste..., disse ela. Esperamos a decisão do Conselho. Eles não querem nossa interferência nas formas de vida deste planeta, só a exploração e coleta do que nos interessa, concluiu e desligou a comunicação. Akin saiu para fora, estava ansiosa. O ser era incrível. Era como se tivesse voltado no tempo, encontrado seu ancestral. Ela sempre acreditou que a vida havia surgido em um ponto único do universo e por ele se espalhado. Este não era o primeiro planeta, além do seu, em que foram encontrados seres viventes. Mas neste havia uma diferença. Havia um que parecia com o ancestral comum do seu povo. Além de haver um ar respirável, gravidade suportável. No local do pouso, estava sendo construída uma base. A exploração do ouro e de outros metais logo seria iniciada. Se a base do planeta vermelho fosse para cá transferida, como o comandante falou, teria muito tempo para estudar este ser mais a fundo, e quem sabe autorização para uma manipulação genética. Sabia que Kael estava fascinado com aquelas criaturas e, com certeza, o conselho também ficaria. Não se sabe onde tal estudo poderia chegar em termos de entendimento da origem deles próprios. Voltou para laboratório, reuniu sua equipe e continuaram a examinar a criatura.

      Lá longe, na órbita planetária, Kael estava intrigado. A descoberta daquele ser era algo a ser pensado. Não eram Deuses, apenas exploradores. Sabia que Akin era uma cientista determinada e competente e tinha em mãos a chance única de estudar seres tão parecidos geneticamente com eles. Naquele momento mesmo, outra nave do quarto planeta se deslocava para este. Em breve muitos de seu povo estariam depredando o Planeta Azul. Sua civilização evoluiu até ali, fisicamente, mentalmente e tecnologicamente. Há muito tempo haviam começado a exploração espacial. Estavam muito além das fronteiras de seu sistema solar. A Soyos 1 havia detonado uma arma poderosa naquele planeta, mas a vida persistiu, se adaptando e criando outros seres e um deles semelhante a eles. O sistema solar deste planeta era também semelhante ao de seu mundo. Kael, após informar ao Conselho de seu planeta a respeito da descoberta daqueles seres, resolveu falar com Akin. Chamou-a no sistema de comunicação. Logo, em um tela imensa, ela apareceu. Parecia estar ansiosa. Consultei o Conselho e experiências foram autorizadas nos seres, disse para ela. Isto é ótimo, quero combinar traços de nosso DNA em um destes seres. Acredito que com isso podemos acelerar a evolução deles. Quero capturar viva uma do sexo feminino e a fecundar no laboratório com um embrião híbrido. Acho que com isso teremos um ser mais inteligente e capaz. Pelo que apurei, até o momento, temos DNA semelhantes, traços idênticos, falou ela muito entusiasmada. Tudo bem, faça isso e me mantenha informado, concluiu Kael. Na base, Akin chamou o comandante da tropa militar e determinou a captura viva de um ser do sexo feminino. Entrou no laboratório e comunicou a boa nova para sua equipe.

      Alguns meses depois, contados no tempo de sol em que estavam. Akin continuava na sua experiência. Fora capturada uma fêmea saudável, que foi fecundada com um embrião híbrido. Uma gestação normal estava ocorrendo. O ouro estava sendo retirado, não só naquela base como em outras. Foram construídas, além dessa, cinco bases por outros lugares naquele planeta. Kael, de vez em quando, descia até o planeta e se maravilhava com o lugar. Percorria todas as instalações e o progresso da extração do ouro. A natureza ali era exuberante. Formas nunca vistas ou imaginadas de vida habitavam aquele lugar. Robôs autônomos percorriam todos os diversos habitats e transmitiam imagens incríveis. Quando a fêmea deu cria, Kael estava presente. Akin queria, a partir das células deste menino, criar uma fêmea. Tudo ocorria conforme deveria ser. Akin pretendia isolar uma parte da selva que circundava a base e ali fazer um viveiro para a cria e sua mãe. Ela queria estudar e monitorar os dois em um habitat natural. Planos para isso foram traçados. O Conselho era informado de tudo que acontecia. Akin não se cansava de elogiar a conclusão de seu experimento. Ela acreditava que aquele pequeno ser iria transmitir aos descendentes traços de DNA do povo dela. A evolução dali para frente iria dar um pulo evolutivo incrível. Com certeza, segundo ela afirmava, aqueles seres dominarão as outras formas de vida e aquele planeta.

      Alguns anos solares depois. O menino híbrido cresceu e foi monitorado seu desenvolvimento. Akin passou a chamá- lo Adão. Mesmo nome pelo qual era chamado o primeiro de sua espécie no planeta dela. Adão andava mais ereto, seu cérebro era maior, era hábil com as mãos. Akin, então, precisava partir para a segunda fase. Queria, a partir de algumas células dele e, por que não, de algumas suas, criar a fêmea. Vai ser chamar Eva, decidiu ela, assim como a primeira de sua espécie. E este procedimento foi feito. Conversou com Kael e um pequeno exército foi disponibilizado para que Akin fosse à caça de uma fêmea apta à inseminação. Sabia de um grupo de hominídeos que vivia nas proximidades. Ela decidira chamar aqueles seres de hominídeos. Saíram , assim, à caça. Ao cercarem o grupo dos seres, Akin determinou que muitas fêmeas fossem mobilizadas. Ela e sua equipe precisavam analisar uma por uma. Cerca de vinte foram anestesiadas pelos soldados, todas jovens e saudáveis, dirá Akin depois. Uma a uma foram trazidas até o veículo expedicionário e laboratório. Após um dia daquele sol, elas foram examinadas e uma escolhida para ser levada à base. A que geraria Eva. E assim foi feito. Alguns meses depois, nasceu Eva, a companheira de Adão. Foram cercados três quilômetros de floresta com um córrego de água. Árvores frutíferas foram ali plantadas também. Ivi, colega de Akin, disse que aquele cercado deveria ser chamado paraíso. Os seres extraterrestres sabiam e conheciam o significado de tal palavra. E assim foi chamado o lar do casal híbrido. Quando chegaram à idade de sobreviverem sozinhos, foram lá colocados e monitorados. Era preciso educá-los e acompanhar de perto o crescimento e desenvolvimento deles.


      A intenção de Akin, então, era não mais ter contato físico com Adão e Eva. Não queria que eles vissem nenhum membro da expedição. Um sistema de comunicação e câmeras foram no paraíso instaladas.Uma das naves já tinha regressado para o planeta de origem. Era um cargueiro com metais e outras coisas de interesse. Nessa nave seguiram membros de três bases, duas permaneceram e a nave de Akin continuava a orbitar. Kael estava desejoso de regressar para casa. Estavam neste planeta há vinte anos. Adão e Eva se adaptaram muito bem ao cercado. Akin não via a hora de eles procriarem. Quando podia, ela e sua equipe iam observar o bando de onde a mãe de Eva veio. Coletavam dados deste bando e os comparavam com os de Adão e Eva. As células de Akin fornecidas para a criação de Eva era o seu segredo. Sua criatura feminina tinha recebido a células de Adão e as suas, já modificadas. Com certeza, a cria deste casal será mais desenvolvida intelectualmente e mais parecida com sua raça, pensava Akin. Estava combinado com o Conselho que, após a partida de seu povo, Adão e Eva seriam liberados para habitarem o planeta. No cativeiro, nada faltava ao casal híbrido. Eles se davam muito bem. O fim da missão estava próximo. Kael havia lhe comunicado que em seis meses, no máximo, se daria a partida deles. Nos últimos meses, Adão e Eva eram trazidos desacordados ao laboratório da base. Eles eram colocados em aparelhos eletrônicos, onde recebiam, inconscientemente, informações. Era preciso que eles acreditassem que a criação deles ocorrera naturalmente, em um processo evolutivo normal.


      A hora da partida daquele planeta havia chegado. Das naves piramidais, que estavam na superfície do Planeta Azul, uma fora deixada para trás por apresentar defeito. Adão e Eva foram retirados do cercado e deixados nas proximidades do bando de onde viera a mãe desta. Akin e todos que estavam baseados no Planeta Azul retornaram à Soyos 10. Ela não saberia se suas criaturas seriam aceitas no bando e, nem mesmo, se ambos sobreviveriam dali para frente. Todos estavam em suas posições para a viagem de retorno. Akin foi até a torre de comando olhar, pela última vez, aquele planeta. Torcia para que Adão e Eva sobrevivessem e, a partir deles, um salto evolutivo ocorresse naquelas criaturas. Ela acelerou o processo, não as criou, pois tal criação era obra de Deus. Apenas contribuiu e adiantou os anos da evolução. Onde Eva e Adão estavam, nesta escala evolutiva, seriam milhares e milhares de anos. Se ali não tivessem chegado, se ela não tivesse manipulado geneticamente aquele casal, que gerarriam outros, e estes um numero maior, o processo evolutivo de tais seres ocorreria gradualmente e naturalmente. Aquele planeta, com certeza, encontrava- se no mesmo tempo em que o seu um dia esteve, no começo de tudo. Perguntou para Kael se um dia seu povo voltaria ao Planeta Azul. Ele a olhou e respondeu, com certeza, outros de nós retornarão. Desde que aprendemos a dominar a viagem espacial, para nós o retorno será inevitável. Iremos acompanhar a evolução deste mundo tão igual ao nosso. Aprenderemos muito da evolução do nosso com este planeta irmão. Akin, quando foi encontrar uma fêmea para ser a mãe de Eva, e examinou vinte daquele bando, o que só ela e sua equipe sabiam...é que todas foram fertilizadas com embriões criados no laboratório. Ela se perguntava, se a criação e evolução de seu povo não ocorrera também por modificação genética. Kael determinou que seu imediato, Mika, programasse a nave para o retorno para o planeta de onde vieram. Este planeta se chama TERRA. A nave piramidal deixada após os exploradores retornarem à Soyos 10, que foi cercada pelo bando de hominídeos , do qual o casal híbrido deveria fazer parte. Eles estavam curiosos daquele objeto, que seria por muito tempo venerado por eles. A partida das outras naves foi observada por Adão, Eva e outros vinte seres híbridos com uma atenção maior.

domingo, 19 de maio de 2013


 Conto 2


O Sonho


  Jorge pegou seu carro, naquele final de tarde, sexta- feira, queria ir para Porto Alegre reencontrar sua família e descansar. Trabalhava e morava durante a semana naquela pequena cidade. Era ele e outro policial a trabalhar na DP. Antes, precisava passar na lavanderia da cidade e pegar algumas roupas. Chegou lá, pegou o que queria e, ao pagar, o proprietário lhe ofereceu um café. Recusou, já eram 18 horas e 30 minutos. Tinha que apanhar seu colega Alexandre na oficina mecânica, uma revisão na viatura teria que ser feita no sábado. Agradeceu a gentileza do dono do estabelecimento, e foi encontrar seu parceiro da lida policial. Estacionou seu carro na entrada do pátio da oficina. Seu colega não havia chegado ainda. Ficou escutando música, fumando um cigarro, aguardando. Lembrou-se que naquela manhã, sua mãe havia lhe telefonado e lhe contado um sonho que ela tivera à noite. Ela lhe relatou que, na noite anterior, sonhou que o pai dela havia, em sonho, lhe entregue um nenê e dissera para ela- Toma seu filho. Sua mãe disse que o avô estava todo vestido de branco. Ele já havia morrido há muito tempo. Jorge não sabia por que, agora pensava sobre o telefonema de sua mãe. Quando pequeno, fora criado pelo avô, que era um policial militar aposentado. Jorge não seguiu os passos dele e optou entrar na Polícia Civil. Aquele sonho seria um aviso? A mecânica ficava às margens de uma rodovia. Logo em seguida, ouviu sons de sirenes que se aproximavam, olhou para estrada e viu duas viaturas da Polícia Militar em alta velocidade passarem por lá em direção ao Bairro Esperança. Preocupou- se, deveria estar acontecendo alguma coisa grave. A viatura da Delegacia chegou. Alexandre o chamou e disse que era para ele entrar no carro. Ao entrar, ouviu dele que havia ocorrido um tiroteio naquele bairro e um homem, informante da polícia, havia sido atingido e o atirador havia se refugiado em uma casa, que estava cercada por policiais militares. Rumaram para aquele bairro.

   Quando chegaram na rua do fato, Jorge olhou e viu o informante caído, ferido, no meio da pista. Uma viatura da PM estava parada e atravessada e havia um policial atrás dela, que apontava uma espingarda 12 em direção à casa. Outros policiais militares estavam posicionados em pátios vizinhos cercando a residência. No local, havia também a presença de muitos moradores da cidade, que para lá foram curiosos do acontecimento e queriam assistir ao desfecho. Ele desceu da viatura e pela calçada contrária à da casa, onde pelo que viu o atirador estaria refugiado, caminhou até o Sargento, que estava ao lado da viatura. Conversou com o militar , que relatou a Jorge, que um homem, conhecido como Ari, atirou contra a vítima e correu para a casa onde residia. Ele ainda disse que o baleado fora atingido por três disparos e a ambulância estava vindo para socorrê-lo. Jorge conhecia Ari, sabia que ele nunca teve problemas com a polícia anteriormente. Comentou isto com o PM, que disse, também, que alguns moradores relataram para ele que Ari havia ingerido cervejas, o dia todo, com um conhecido assaltante da região que fora visitá- lo. Ele havia baleado o informante, quando este passava em frente à casa, momentos antes. Após, havia entrado na residência e estaria sozinho.O sargento tentou dialogar com ele, que havia efetuado alguns disparos do interior para a rua. O policial civil disse que iria na viatura buscar seu colete à prova de balas e conversar com Alexandre que aguardava no veículo. O carro da Delegacia fora estacionado há cerca de uma quadra da casa cercada, juntamente com outras viaturas da PM. Quando estava no meio do caminho, Jorge escutou um barulho, olhou para trás, para a casa cercada, e viu o sargento chutando a porta. Em uma fração de segundos, Jorge pensou-”ele vai entrar sozinho”. Correu em direção ao colega militar. Ao chegar até ele, viu que a porta abriu. Jorge entrou na sala de estar, já com sua . 40 empunhada e pronta para o uso. A residência era de madeira, pequena, e no lado contrário da parede esquerda havia dois quartos. Jorge foi até a porta de cada quarto e espiou, nada do atirador. No final da sala, em frente, tinha uma peça escondida por uma cortina floreada. O sargento ficou aguardando na porta, na cobertura. Jorge parou em frente à cortina, sua pistola na mão direita, apontada para frente. Com a mão esquerda, abriu a cortina e se deparou com Ari à sua frente, apontado para ele um revólver preto. O policial, em uma fração de segundos, sentiu um calafrio e uma presença ao seu lado. Ari disparou uma, duas, todas as seis... Jorge teve a sensação de que estava sendo levantado e girado no ar e, ao mesmo tempo, sentiu um impacto, como um coice atingindo seu peito, lado esquerdo e caiu ao chão. Estava escurecendo. Agonizando, Jorge olhou para porta pela qual havia entrado e por onde devia sair. Ela parecia estar muito, muito longe, inalcançável. Apalpou o chão e não encontrou sua arma. O atirador veio até ele. Viu o policial caído, com uma só mão abriu a arma e os estojos vazios caíram todos juntos ao lado de Jorge. Ari tornou a municiar seu revólver, apontou para a cabeça do baleado, ao mesmo tempo em que o sargento entrava lá com a espingarda pronta para ser disparada. Ari olhou para o PM e atirou, correndo em direção ao cômodo que era dividido pela cortina. O Sargento chegou ao lado de Jorge e disparou em direção ao fugitivo. Após este disparo, a espingarda 12 engasgou. Jorge via tudo em câmera lenta. Ari começou a descarregar seu revólver da outra peça em direção à sala. O PM teve que recuar. Vários disparos foram efetuados, inclusive pelos policiais que cercavam a casa. Jorge estava apavorado, sentia o ar frio penetrar pelo buraco da bala. Não tinha forças para levantar- se. Tudo acontecia para ele lentamente, cada segundo...uma eternidade, estava ficando escuro, o que via eram os objetos da casa na penumbra. Estava tudo agora em silêncio. Juntou todas suas forças e arrastou- se para a porta da saída. Para ele, a distância até lá era imensa, mas precisava sair da casa.

   Ferreira, policial militar, que estava de férias, morava na mesma rua onde acontecia a ocorrência e foi até o local, pois era consciente de seu dever e queria ajudar seus colegas, apesar de estar desarmado. Viu que Jorge estava caído, próximo à porta. Correu até ele e o pegou pelos braços e o puxou até a calçada. O sargento veio em sua ajuda e os dois levaram o policial baleado até sua viatura. Jorge foi colocado deitado no banco traseiro. Ferreira sentou no banco do caroneiro, segurando uma das mãos do baleado e Alexandre dirigiu rapidamente para o hospital. Jorge foi retirado do carro policial, colocado em uma maca e levado à uma sala de emergência. Via e ouvia como se estivesse longe dali. Tudo muito distante. Seu corpo, devido à perda de sangue, tremia, estava em estado de choque. Sentiu sua camisa ser cortada e tirada; o médico o examinou. Ouviu, ao longe, o doutor dizer para alguém que a morte de Jorge era questão de tempo, devido ao local em seu peito por onde a bala havia entrado. Jorge sentiu raiva de si mesmo e do mundo. Tinha a certeza da morte iminente. Sua vida passou em sua mente como um filme, todos os momentos marcantes vividos até ali. Queria viver, tinha que viver. Sentiu uma picada no braço direito, virou o olhar e soube que estava sendo aplicada uma injeção.Seu corpo amoleceu, sua mente se tranquilizou, estava incrivelmente se conformando com a situação. Não queria mais lutar contra a morte, não importava mais para ele a vida, fechou os olhos. O sonho que sua mãe havia lhe relatado, o viu, como se estivesse assistindo à cena. Passou- se um tempo, abriu os olhos. A enfermeira, que estava ao lado da maca, gritou pelo médico. Foi, novamente examinado e viu que o médico foi ao telefone e pediu uma ambulância. Você leitor deve estar se perguntando por que Jorge não foi operado, ou feitos outros procedimentos em seu socorro naquele hospital. Eu explico: era uma cidade do interior, aquele estabelecimento não tinha recursos e nem UTI, o médico era já um senhor de idade avançada, acostumado a pequenos procedimentos. Atendimentos mais complexos eram feitos em outra cidade, onde havia um hospital referência da região e para lá nosso policial foi levado.

    Jorge, ao dar entrada no hospital, onde foi operado, antes da tal cirurgia, estava mais consciente e atento a tudo que se passava a sua volta. Teve novamente medo ao entrar na sala cirúrgica. Seu medo, agora, era de ser anestesiado e não despertar mais. Ele foi operado, consertado seu interior do estrago causado pelo tiro. Após, foi levado a um quarto para recuperar- se. Ao acordar viu sua irmã ao seu lado. Ela veio para ficar com ele. No bairro Esperança, as coisas continuavam na mesma. Ari ainda encontrava- se no interior da casa, de vez em quando ocorriam disparos, tanto dele como dos policiais, que agora eram muitos, de toda a região, militares e civis. Até lanches foram providenciados para a força policial. Alexandre colocou dois coletes à prova de balas e queria entrar na casa, foi contido por outros colegas. O atirador refugiava- se no banheiro que era de alvenaria e o protegia. A ocorrência foi até a madrugada. Após gastar uma caixa de 50 tiros, Ari resolveu se entregar e ser preso. A maioria dos moradores ficaram nas proximidades acompanhando tudo, nem se importaram com o capítulo final da novela. É claro que sempre o capítulo final é reprisado no sábado. Os comerciantes, aqueles que tinham bares e armazéns próximos, ficaram abertos até o final da ocorrência. Oportunidade única de terem um lucro a mais. No final, a pistola de Jorge foi encontrada fora da casa, na calçada. Após alguns dias, no hospital, onde teve que fumar seus cigarros escondidos, na área de visitas, quando já podia andar, Jorge teve alta. A primeira coisa que quis saber foi o desfecho do caso. Alexandre foi o primeiro a lhe contar do acontecido, outras versões parecidas com as de seu colega também lhe foram relatadas por policiais militares, civis e espectadores. A casa do agressor ficou assim tipo queijo suíço, toda furadinha de tiros disparados de ambos os lados. Mas, nenhum disparo da polícia atingiu Ari, que foi preso intacto. Ou os policiais que lá estavam eram muito ruins de pontaria ou Ari tinha o “corpo fechado”.

    Há coisas inexplicáveis, que precisam ser analisadas e interpretadas, muito além do óbvio. O tiro que atingiu Jorge entrou próximo ao seu coração, traçou uma trajetória inexplicável, contornou suas costelas e saiu nas costas, na altura do rim esquerdo, como se realmente ele tivesse sido levantado e girado. Apenas um o acertou, dos seis disparados por Ari, em seu dia de fúria. Um projétil disparado tende a ir em linha reta. Se Jorge fosse atingido normalmente, o traçado seria reto ao pulmão esquerdo e, com certeza, fatal. Será que ele só está vivo, porque foi salvo por seu avô? Se tentamos interpretar o sonho de sua mãe, quando ela recebe de seu pai um bebê, dizendo:- toma seu filho, o inexplicável pode se tornar algo explicável e entendido. Será que os que partem e não vivem mais entre nós, zelam por nós....Sua mãe mandou rezar uma missa pela alma de seu pai agradecendo à vida do filho, protegida por ele.

sábado, 18 de maio de 2013



Conto 1

Três Mortes e uma Dívida


    Acordei com o celular tocando, levantei, olhei para o relógio, eram 7 horas, manhã fria de um sábado. Trabalhava, naquela cidade pequena, sozinho, lugar de origem alemã, tranquilo, pacato, sem muitas emoções, apenas ocorrências básicas. Atendi o telefone. Era um PM, me disse que estavam precisando que fosse até a Localidade do Salto, porque uma família havia sumido e no local tinha vestígios de sangue. Fui para lá, ficava há cerca de 10 quilômetros de onde morava. Era no interior, zona rural, em frente à propriedade havia várias pessoas curiosas, moradores da redondeza. Dois policiais militares isolavam a entrada. Um deles, o PM Peixoto veio até mim e disse, que ali moravam um homem, sua mulher e um filho. Ele relatou que, naquela manhã, a professora do garoto, que tinha nove anos, foi ali, porque era o aniversário da criança e ela estaria ajudando a organizar a festa de aniversário, que seria na sociedade da comunidade, naquela tarde. O garoto iria comemorar seus nove anos. Falei com a professora, que era bastante jovem, ela repetiu o que o PM havia me dito e ainda disse, que foi até a cozinha e que encontrara a porta aberta, por isto entrou. Não encontrou ninguém e ao ver que na cozinha tinha manchas de sangue no chão e nas paredes, resolveu deixar o local e ir até um vizinho ligar para a polícia. Ela também achou estranho que o carro santana da família não estava na garagem. Entrei na propriedade, fui até a cozinha, acompanhado de Peixoto, entrei e vi gotas de sangue nas paredes e no chão, o cômodo era pequeno.O sangue do piso estava espalhado, como que se tivessem tentado limpar com um pano úmido. Sei que gotas de sangue, quando atingem a parede, é porque alguém foi golpeado na cabeça. Pela altura das manchas a pessoa golpeada estaria em pé. Na mesa havia um caderno aberto e lápis espalhados, olhei para ele e notei que era da criança, que deveria estar fazendo a lição, olhei para a folha que escrevia, vi que não havia terminado seu tema de casa. Em um dos balcões, ao lado do fogão, tinha um portarretrato do filho, uma garoto pequeno, camiseta do grêmio; pela foto dava para ver que era uma criança saudável e feliz. Neste balcão estava um outro caderno, tipo universitário, percebi que uma página estava rasgada na metade. Ao folhear, vi que havia nomes e valores anotados ao lado. Peixoto comentou que o pai era um agiota conhecido na região, que emprestava dinheiro a juros. O restante da residência estava normal, as camas estavam arrumadas, como se ninguém houvesse dormido na noite. O outro PM, Santana, chegou até nós e disse que ao lado do poço, que ficava próximo à casa, tinha um balde e em seu interior um pouco de água avermelhada e um pano. Olhamos para dentro do poço e vimos que havia outros panos lá dentro e sangue. Pedi para que os PMS chamassem os bombeiros, para que fosse olhado o interior do poço. Da cozinha até a garagem, que ficava independente da casa, há cerca de 10 metros, tinha, a partir da porta, um caminho de brita. Segui por este caminho, olhos firmes no chão, olhando as pedras de brita, vi que havia gotas de sangue, que seguia por este trilho. Na garagem, próximo à porta, que estava aberta,havia um macaco de carro jogado no chão e um pouco de sangue. Logo em seguida, chegou ao local uma viatura dos bombeiros, vinda de outra cidade. Chegaram rápido. Dois soldados desceram e conversaram comigo, expliquei a eles a situação do poço. Voltaram para a viatura, pegaram cordas, roupas apropriadas e foram para o local. Olhei para o relógio, eram agora 9 horas. Fui até lá e acompanhei o trabalho dos bombeiros. Um deles havia entrado no poço, que não era fundo, parecia ter cerca de 10 metros. Os panos que lá estavam foram tirados. O bombeiro que havia entrado, gritou que não tinha nenhum corpo lá. Fui com os bombeiros até a entrada da propriedade, quando assinava a ficha de ocorrência deles, a justificativa do deslocamento, chegou até nós um morador vizinho. Ele disse que havia ouvido comentários, durante aquela manhã, que na rodovia que liga a cidade à serra, um veiculo incendiando havia descido um penhasco. Os bombeiros disseram que não foram chamados para nenhum acidente naquela rodovia na noite ou madrugada anterior. Os Policiais Militares disseram nada saber. Discutimos as várias possibilidades deste fato e do que foi relatado pelo vizinho e resolvemos dar uma olhada na rodovia. Pedi que os Policiais Militares continuassem no local, fazendo o isolamento. A viatura do corpo de bombeiros saiu primeiro. Questionei os vizinhos mais próximos, que diseram não saberem de nada, que nenhum barulho escutaram e nada sabiam do que havia acontecido.

     Liguei para o Delegado plantonista expliquei para ele o que estava acontecendo, e fui para a rodovia. Ela tem várias curvas e segue em direção à serra. Partindo da cidade, no lado direito, há barrancos e penhascos. No deslocamento, ia pensando no cenário que vi na propriedade da família desaparecida, alguma morte com certeza ocorrera. Me perguntava-” será que mataram todos os três”. Ao fazer uma curva à esquerda, bastante acentuada, quando a venci, vi a viatura dos bombeiros estacionada no acostamento. Os dois soldados gesticulavam e olhavam para baixo, cheguei até eles e vi, sem dúvidas, havia um carro incendiado, totalmente queimado, há uns 15 metros ladeira abaixo. Um dos bombeiros desceu por uma corda, que foi ancorada na caminhonete deles. Ao retornar, este bombeiro relatou que era um veículo santana, totalmente queimado e, na sua proximidade, fora do carro, havia três corpos totalmente carbonizados. Um era pequeno, de uma criança. Pensei, lá estava a família sumida. Olhei a rodovia, não havia sinais de derrapagem ou freada. Foi acionada uma outra viatura dos bombeiros, era preciso mais homens para que os corpos e o veículo fossem retirados. Acionei por telefone a perícia para a casa. Havia, agora, a certeza de um crime. Os corpos foram içados por cordas. Ao olhá-los dava para ver que foram mortos, golpeados por algo. Mesmo totalmente carbonizados dava para ver as lesões que sofreram. Lembrei-me que o pai era agiota, este poderia ser o motivo. Lembrei- me, também, do caderno e as anotações de nomes e valores. Poderia começar por aí a investigação. Olhei o relógio já eram 16 horas. Voltei para a casa das vítimas. Os corpos foram encaminhados para a necropsia. Iria aguardar na propriedade a chegada da perícia, que viria de Porto Alegre. Novamente, na propriedade da família, conversei com um irmão da mulher morta. Ele me relatou que ela era adotada e que o menino era também adotado. O marido era filho único. Segundo ele, a família vivia da agiotagem. O pai emprestava dinheiro a juros e sempre que ia fazer uma cobrança, levava a mulher e o filho. Ele era insistente com seus devedores. Eles tinham muito dinheiro emprestado. Viviam uma vida simples, o veículo santana era antigo e a casa sem conforto nenhum, somente o essencial. A perícia foi feita, um dos peritos me informou que na cozinha havia ocorrido uma luta, que o menino possivelmente estaria fazendo os temas da escola e que um deles veio machucado da garagem em direção à casa. Agradeci ao trabalho deles e foram embora. Já não havia mais nada, por enquanto, a fazer lá. Dispensei os PMS, que assim como eu estavam cansados. Ainda havia em frente à propriedade um número grande de curiosos. Já eram quase 20 horas. Fui para a Delegacia fazer o BO, a apreensão do caderno com as anotações de nomes e valores e relatar ao Delegado o que estava acontecendo até o momento. Fumei o último cigarro, precisava comprar mais. Olhei o relógio, eram 22 horas, fechei a Delegacia. Só havia um lugar aberto naquele horário, onde poderia comprar meu tabaco, fui para lá.

     Entrei no boteco e vi que havia três homens sentados à uma mesa, jogavam cartas e bebiam cervejas. Fui até o balcão e pedi uma carteira de cigarros, da marca que fumo. Um dos homens levantou e me disse: - “Espero que encontre quem matou a família, matar uma criança daquele jeito, tomara que o filha da puta que fez isto morra na cadeia”. E ele quis saber mais detalhes. Olhei para ele, vi que era um homem alto, gordo e forte, parecia o sargento Garcia da Série Zorro. Claro era de origem alemã, tinha bigodes ralos, já havia visto ele pela cidade. Respondi qualquer coisa e sai. Fui para casa.Tentei comer alguma coisa, não havia ingerido nada o dia todo. Fumara uma carteira de cigarros. Tentei dormir, não consegui. Liguei para o DML e um funcionário, auxiliar de perícia confirmou que as vítimas haviam sido mortas a golpes de um objeto contundente. O relógio em meu pulso marcava 1 hora. Nada de sono. Resolvi voltar à propriedade das vítimas. Pensei, às vezes, o assassino volta ao local do crime. Agora tinha conhecimento que a arma do crime era um objeto contundente. Fui para lá. A propriedade ficava às margens de uma rua asfaltada, escuridão total, as casas vizinhas eram longe, a mais próxima ficava do lado esquerdo, eram propriedades como sítios. Estacionei a viatura em frente à entrada da propriedade. Observei o local fumando um cigarro. Meus pensamentos estavam a mil. Olhei em direção à casa e tive a vaga sensação de ver um vulto. Apaguei o cigarro, saquei minha pistola e fui em direção à casa. Escutei barulhos na cozinha. Dei a volta, resolvi chegar pelo outro lado, se houvesse alguém lá dentro, e se sabia que eu estava também no local, fugiria por este lado, devido à vegetação. Olhei para a cozinha, alguém apagou uma lanterna. Havia cochichos. Fui me aproximando da porta, com o corpo colado na parede. Quando cheguei na quina da parede que estava, lateral à porta da cozinha, vi três pessoas saindo. Gritei para que parassem e disse que era polícia. Alguém, que não era nenhum dos três que estavam na minha frente, correu para o mato saindo do galpão, localizado na parte de baixo do terreno. Os três ficaram imóveis. Mandei que fossem para a parede e ficassem em posição de revista. Obedeceram. Revistei um por um e lembrei que havia visto eles na frente da casa naquele dia. Questionei o que eles estavam fazendo ali. Responderam que deviam dinheiro para o morto e estavam procurando seus cheques dados como garantia de empréstimos. Não queriam ser vistos como suspeitos e não tinham nada a ver com as mortes, eram amigos e vizinhos da família. Levei-os até a viatura, anotei seus nomes e solicitei uma viatura da Brigada Militar, para que me auxiliasse na condução deles até a DP. Terminei a noite ouvindo-os. Tive a certeza de que nenhum deles estava envolvido nas mortes. Os liberei. Sabia que as dívidas para com o morto poderia ser um motivo para as mortes, não foi localizado nenhum cheque ou valores na casa naquele dia, apenas o caderno. Examinei ele, havia muitos nomes, inclusive de empresários e os valores anotados eram altos. Peguei uma folha e anotei os nomes com os valores devidos e os juros pagos, colocando primeiro os valores mais altos. Precisava ouvir todos. O assassino tinha que estar entre estes 50 nomes. Liguei para o irmão da mulher que fora assassinada e pedi para que ele me encontrasse na propriedade naquela manhã. Após, fui até o posto da Brigada Militar e pedi ao comandante que me cedesse dois soldados. Precisava fazer uma revista minuciosa na propriedade.

     Levei os dois PMS comigo. Quando chegamos, lá já estava o irmão da vítima. Na frente, vários curiosos, alguns repórteres locais e da região faziam entrevistas com os vizinhos e tiravam fotos. Não quis falar com nenhum deles, dizer o quê? Começamos a revista pela casa. A única coisa que chamou minha atenção é que em uma das gavetas de uma cômoda, em um quarto, onde havia várias bugigangas, tinha um absorvente feminino sujo e no fundo desta gaveta uma quantia em dinheiro antigo, como se tivesse sido lá esquecido. Após a revista da casa, fomos para o galpão, onde havia ferramentas, latas vazias e outros objetos da lida no sítio. Em uma das paredes havia prateleiras, e uma delas me chamou atenção, porque vi uma lata de tinta, já meio enferrujada e em cima dela um outro absorvente feminino sujo. Nenhum de nós tocou nesta lata. Por nojo daquele absorvente sujo. Terminamos de revistar toda a propriedade, não encontramos valores em dinheiro, a não ser a quantia antiga, nenhum cheque, nada, nem algo que poderia ser a arma dos crimes. O enterro seria à tarde. Liberei o irmão para o final do velório e fui comer alguma coisa no centro da cidade com os PMS. Durante o almoço, discutimos as mortes, o motivo com certeza era agiotagem, poderia ser alguém que estava se sentindo pressionado pelo homem. Ele emprestava um montante e todos os meses cobrava os juros. Comentamos, também, sobre os absorventes sujos, na gaveta e na lata. Aquela velha lata, que nem um de nós teve a coragem de olhar, por causa de um absorvente sujo em cima. Chegamos à conclusão de que devíamos voltar e olhar em seu interior. Resolvemos voltar, mas depois do almoço, é claro. Terminamos a refeição e voltamos à propriedade, no galpão, pegamos um graveto e tiramos o absorvente de cima da lata. Peguei-a abri...em seu interior havia vários cheques, mais de cem. Todos preenchidos e assinados por pessoas diversas e com as datas em branco. Somei os valores e calculei cerca de R$ 150.000,00. Muitos donos destes cheques já havia visto no caderno, seus nomes. Aquele absorvente era algo que evitaria que alguém, que entrasse ali, deixasse de olhar a lata.

     Dois meses das mortes se passaram. Ouvi todos da lista que tinha. Todos pareciam suspeitos, mas provas contra alguns deles não havia, apenas as dívidas, que possuíam com o pai da família morta. Muitos pareciam estar felizes, sabendo que não teriam que pagar mais nada do dinheiro emprestado, nem os juros e nem o montante: um alívio financeiro para eles. Não havia mais na cidade comentários intensos, como antes, a respeito das mortes. A imprensa, que antes ligava ou ia à Delegacia, quase todos os dias, buscando novidades do caso, sumiu. Certo dia, no começo da tarde, chegou à Delegacia, um comerciante, que tinha consigo um cheque de uma mulher. Relatou-me que um cliente havia ido ao seu estabelecimento e feito compras, pagando com este cheque, há uma semana atrás. Como o homem era seu conhecido e consertava aparelhos de refrigeração, e disse ter recebido o cheque como pagamento de um serviço, ele aceitou e até deu troco. O comerciante depositou o cheque, mas não foi compensado, porque havia sido cancelado pela correntista. Como a cidade era pequena, este homem localizou a dona do cheque e foi informado, por ela, que esta folha havia sido dada como garantia em um empréstimo que fizera com o pai da família morta. O homem me forneceu o nome de seu cliente. Consultei o nome no sistema policial, puxei a foto e gelei. Era o Sargento Garcia! Aquele que havia me interpelado no boteco, na noite dos crimes, e dito que o matador deveria apodrecer na cadeia. Anotei o endereço e fui para a casa dele, que ficava no interior do município. Lá só estava um dos filhos dele, de 13 anos. Disse que os pais estavam trabalhando. Perguntei onde o pai trabalhava. Respondeu que o pai estava fazendo um serviço em uma empresa de laticínios em uma outra cidade próxima e que ele só regressaria à noite. Perguntei, ainda, que carro o pai estava usando. O filho respondeu que era uma belina prata. Sabia onde era a empresa a que ele se referia. Ficava há 20 quilômetros, rumei para lá. Após dirigir por estradas asfaltadas e de chão, cheguei à empresa. Lá, fui informado de que o suspeito havia terminado o serviço, recebido por ele e pedido mais uma quatia adiantada, alegando que pagaria em um outro serviço. Ele havia saído apressado e rumado no sentido Porto Alegre, dirigindo sua belina prata. Liguei para a Polícia Rodoviária Federal e pedi que os policiais ficassem em alerta e tentassem abordar o suspeito. Voltei para casa dele e aguardei o filho mais velho e a esposa regressarem. Ela me informou que ele havia ligado para seu serviço e dito que precisava sumir, que a polícia estava atrás dele por causa de um cheque. Não sei como ele já sabia que estava sendo procurado. O filho mais velho me contou que das mortes nada sabia e que iria ajudar no que fosse preciso para localizar seu pai. Expliquei que ele era apenas um suspeito. Eles ainda disseram que era costume o pai sair à noite para fazer algum conserto emergencial para algum cliente e que não sabiam nada do cheque. Confirmaram que o pai conhecia a família morta e já havia pedido dinheiro emprestado para o homem. O filho menor de 13 anos me pareceu meio estranho, meio assustado. Queria falar com ele, mas não naquele momento. Intimei todos para comparecerem à Delegacia de Policia no outro dia. Passei o restante do dia e a noite a vigiar a casa do suspeito de longe, desejando o retorno dele. Mas ele não veio. Senti que, finalmente, tinha algo concreto, um suspeito, um motivo, já que o nome dele não constava na lista e poderia estar no pedaço da folha do caderno que faltava e o cheque que ele havia dado em pagamento, estava na posse do morto.

     No horário marcado, a mulher e os dois filhos do suspeito compareceram à delegacia. Ouvi primeiro a mulher, que sustentou o que havia me dito no dia anterior. Disse, também, que seu marido não havia mais entrado em contato. O filho mais velho confirmou oque havia dito no dia anterior, e para a noite dos crimes relatou que estava na escola e, após, foi para a casa de amigos com a namorada.O menino de 13 anos, ao ser ouvido, ficou bastante nervoso. Confessou que, na noite das mortes, estava dormindo e que seu pai o acordou, dizendo que precisava de sua ajuda. Colocou o menino no carro e foi com ele para a casa das vítimas. No caminho, o pai lhe disse o que tinha feito, que havia matado três pessoas e queria que ele o ajudasse a colocar os corpos no carro da família, e que levasse o carro dele até a rodovia da serra, para que as mortes parecessem um acidente. O garoto sabia dirigir, o pai havia lhe ensinado. Disse, também, que na propriedade da família o corpo da mulher e da criança estavam na cozinha, o do homem próximo à porta , na pequena área. O menino ajudou o pai a colocar os corpos no santana, que foi levado até as proximidades da casa. Os dois, após, tentaram limpar o sangue do local, não tendo conseguido. O pai,, então levou os panos da limpeza e os jogou no poço. Viu, também, que o pai havia pego do chão uma machadinha, suja de sangue e a colocado em uma sacola plástica,guardando-a na belina.O pai saiu dirigindo o santana com os corpos e ele a belina. Rumaram para a Rodovia da serra. Já era madrugada. Não viram ninguém e nem um carro pelo caminho. No local escolhido, o pai parou o santana virado para o penhasco. Foi até a belina e pegou no porta-malas duas garrafas pet de gasolina. Espalhou o combustível por dentro do carro e colocou fogo. O menino o ajudou a empurrar o carro para o penhasco, que desceu incendiando. Voltaram para casa, mas, antes, o pai, que agora dirigia a belina, parou às margens do riacho, que corta a cidade, e jogou a sacola com a machadinha nas águas. Ele relatou, ainda, que jurou para o pai guardar este segredo. Senti que o garoto precisava falar daquela noite, aquilo tudo estava o angustiando, desde o ocorrido. Com este depoimento, poderia conversar com o delegado e solicitarmos, no Fórum, a prisão do suspeito, que agora era acusado. O delegado conversou com o promotor para que fosse tomada uma atitude acerca do menor e ele foi liberado para ficar com a mãe.

     O mandado de prisão preventiva contra o acusado foi concedido e expedido. De posse dele, com a ajuda e companhia do filho mais velho, fomos à casa de parentes e amigos do procurado, para tentar prendê- lo, nas cidades de Guaiba e Canoas. Havia passado uma semana, e nada de encontrá- lo. Já não tínhamos onde procurar por ele, até que, em uma quinta- feira, o filho mais velho foi à Delegacia, dizendo que seu pai havia lhe telefonado e que queria encontrá-lo na cidade de Canoas, em um estacionamento de caminhões, naquela tarde.Fomos para lá. Na entrada do estacionamento, que era um pátio enorme de uma empresa transportadora, apesar do grande número de caminhões, vimos a belina do acusado estacionada. Estacionei a viatura ao lado de um caminhão, que a escondeu. Descemos e fomos em direção ao carro do acusado, olhei para seu interior e vi que ele estava lá, dormindo no banco do motorista. Fui até ele e o acordei, olhou para mim, meio sonolento...pedi que ele descesse e colocasse suas mãos no capô. Ele não demonstrava surpresa e obedeceu. Revistei-o e o algemei, informando que estava sendo preso pelos homicídios. Coloquei o preso no banco do passageiro e voltei para a cidade. O filho dele trouxe a belina. No caminho, contou que, naquela noite, iria pegar carona em um caminhão e fugir para São Paulo. Perguntei se ele recordava o que havia me dito no boteco, na noite dos homicídios. Ele disse que sim. Perguntei o que tinha ocorrido na noite das mortes. Ele se emocionou, me olhou e começou a contar. Estava devendo R$ 750,00 para o agiota e não estava conseguindo pagar nem os juros. Na tarde daquele dia, foi procurado pelo homem, que estava acompanhado do filho e da mulher, e cobrado. Disse que não poderia pagar e foi ameaçado e humilhado pelo morto. Sabia que todas as sextas- feiras ele fazia cobranças. Resolveu ir à casa dele, naquela noite, negociar sua dívida e tentar conseguir mais dinheiro emprestado. Em torno das 21 horas, estacionou a belina na entrada da propriedade da família. Foi até a garagem, onde estava o homem. Acabou discutindo com ele a respeito de sua dívida e teve um novo empréstimo negado. Pediu o macaco do carro dele emprestado. O homem abriu o porta-malas do santana. Viu na parede da garagem uma machadinha dependurada, a pegou e golpeou o homem na cabeça, na nuca, quando ele estava abaixado pegando o macaco.O homem correu cambaleando em direção à casa. Foi atrás e o golpeou de novo na cabeça, na entrada da cozinha. A mulher que lá estava, saiu para fora. Quando ela viu o marido caído e o assassino com a machadinha na mão, retornou para dentro. Ele entrou atrás dela e a golpeou, também na cabeça. Ela caiu, e ele a golpeou outras vezes, todas em sua cabeça. Vendo que o garoto estava paralisado, sentado à mesa, onde fazia sua lição de casa, não podia deixar testemunhas, resolveu matá- lo também. Olhou o interior dos armários da cozinha e encontrou, em uma gaveta, o caderno, onde o agiota anotava sua contabilidade. Resolveu rasgar e levar a metade da folha onde constava sua dívida. Pegou três cheques de terceiros que estavam no interior do caderno. Quando voltava para casa, teve a ideia de pegar seu filho e retornar, colocar os corpos no santana e levar o veículo até a rodovia da serra e fazer com que tudo parecesse um acidente. Esta parte da história foi igual à contada por seu filho. Como contra ele não havia suspeita, resolveu gastar um dos cheques no mercado. Nem imaginava que a dona do cheque iria cancelá- lo. Na manhã do dia em que fugiu do local, onde estava trabalhando, foi procurado pelo comerciante, o qual deu o cheque. Este o ameaçou dizendo que, se não recebesse até o meio- dia, iria à polícia e o entregaria. Chegamos à delegacia, formalizei seu depoimento e, após, o deixei no presídio. Meses depois, após ser julgado, foi condenado pelas mortes e roubo dos cheques.

    Passado algum tempo, após a condenação do matador, seu filho mais velho, que tanto cooperou comigo na prisão do pai, morreu em um acidente, na rodovia da serra, em uma curva. O veículo que ele dirigia colidiu de frente contra um caminhão, que vinha em sentido contrário. O carro incendiou e seu corpo ficou carbonizado. Lamentei muito. Fui trabalhar em outra cidade e anos depois fiquei sabendo que o filho mais novo do assassino, que havia ajudado o pai, entrou para o crime e acabou morrendo. Ele havia roubado uma moto e na fuga colidiu contra um poste. O “sargento Garcia”, deve agora estar solto. Os anos se passaram e sua pena de reclusão já deve ter terminado. Não morreu na cadeia, como me disse que deveria acontecer com o filho da puta que matou a família. Até hoje penso e gostaria de saber quem pagou o advogado para ele no julgamento...ele aliviou financeiramente muita gente...