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domingo, 19 de maio de 2013


 Conto 2


O Sonho


  Jorge pegou seu carro, naquele final de tarde, sexta- feira, queria ir para Porto Alegre reencontrar sua família e descansar. Trabalhava e morava durante a semana naquela pequena cidade. Era ele e outro policial a trabalhar na DP. Antes, precisava passar na lavanderia da cidade e pegar algumas roupas. Chegou lá, pegou o que queria e, ao pagar, o proprietário lhe ofereceu um café. Recusou, já eram 18 horas e 30 minutos. Tinha que apanhar seu colega Alexandre na oficina mecânica, uma revisão na viatura teria que ser feita no sábado. Agradeceu a gentileza do dono do estabelecimento, e foi encontrar seu parceiro da lida policial. Estacionou seu carro na entrada do pátio da oficina. Seu colega não havia chegado ainda. Ficou escutando música, fumando um cigarro, aguardando. Lembrou-se que naquela manhã, sua mãe havia lhe telefonado e lhe contado um sonho que ela tivera à noite. Ela lhe relatou que, na noite anterior, sonhou que o pai dela havia, em sonho, lhe entregue um nenê e dissera para ela- Toma seu filho. Sua mãe disse que o avô estava todo vestido de branco. Ele já havia morrido há muito tempo. Jorge não sabia por que, agora pensava sobre o telefonema de sua mãe. Quando pequeno, fora criado pelo avô, que era um policial militar aposentado. Jorge não seguiu os passos dele e optou entrar na Polícia Civil. Aquele sonho seria um aviso? A mecânica ficava às margens de uma rodovia. Logo em seguida, ouviu sons de sirenes que se aproximavam, olhou para estrada e viu duas viaturas da Polícia Militar em alta velocidade passarem por lá em direção ao Bairro Esperança. Preocupou- se, deveria estar acontecendo alguma coisa grave. A viatura da Delegacia chegou. Alexandre o chamou e disse que era para ele entrar no carro. Ao entrar, ouviu dele que havia ocorrido um tiroteio naquele bairro e um homem, informante da polícia, havia sido atingido e o atirador havia se refugiado em uma casa, que estava cercada por policiais militares. Rumaram para aquele bairro.

   Quando chegaram na rua do fato, Jorge olhou e viu o informante caído, ferido, no meio da pista. Uma viatura da PM estava parada e atravessada e havia um policial atrás dela, que apontava uma espingarda 12 em direção à casa. Outros policiais militares estavam posicionados em pátios vizinhos cercando a residência. No local, havia também a presença de muitos moradores da cidade, que para lá foram curiosos do acontecimento e queriam assistir ao desfecho. Ele desceu da viatura e pela calçada contrária à da casa, onde pelo que viu o atirador estaria refugiado, caminhou até o Sargento, que estava ao lado da viatura. Conversou com o militar , que relatou a Jorge, que um homem, conhecido como Ari, atirou contra a vítima e correu para a casa onde residia. Ele ainda disse que o baleado fora atingido por três disparos e a ambulância estava vindo para socorrê-lo. Jorge conhecia Ari, sabia que ele nunca teve problemas com a polícia anteriormente. Comentou isto com o PM, que disse, também, que alguns moradores relataram para ele que Ari havia ingerido cervejas, o dia todo, com um conhecido assaltante da região que fora visitá- lo. Ele havia baleado o informante, quando este passava em frente à casa, momentos antes. Após, havia entrado na residência e estaria sozinho.O sargento tentou dialogar com ele, que havia efetuado alguns disparos do interior para a rua. O policial civil disse que iria na viatura buscar seu colete à prova de balas e conversar com Alexandre que aguardava no veículo. O carro da Delegacia fora estacionado há cerca de uma quadra da casa cercada, juntamente com outras viaturas da PM. Quando estava no meio do caminho, Jorge escutou um barulho, olhou para trás, para a casa cercada, e viu o sargento chutando a porta. Em uma fração de segundos, Jorge pensou-”ele vai entrar sozinho”. Correu em direção ao colega militar. Ao chegar até ele, viu que a porta abriu. Jorge entrou na sala de estar, já com sua . 40 empunhada e pronta para o uso. A residência era de madeira, pequena, e no lado contrário da parede esquerda havia dois quartos. Jorge foi até a porta de cada quarto e espiou, nada do atirador. No final da sala, em frente, tinha uma peça escondida por uma cortina floreada. O sargento ficou aguardando na porta, na cobertura. Jorge parou em frente à cortina, sua pistola na mão direita, apontada para frente. Com a mão esquerda, abriu a cortina e se deparou com Ari à sua frente, apontado para ele um revólver preto. O policial, em uma fração de segundos, sentiu um calafrio e uma presença ao seu lado. Ari disparou uma, duas, todas as seis... Jorge teve a sensação de que estava sendo levantado e girado no ar e, ao mesmo tempo, sentiu um impacto, como um coice atingindo seu peito, lado esquerdo e caiu ao chão. Estava escurecendo. Agonizando, Jorge olhou para porta pela qual havia entrado e por onde devia sair. Ela parecia estar muito, muito longe, inalcançável. Apalpou o chão e não encontrou sua arma. O atirador veio até ele. Viu o policial caído, com uma só mão abriu a arma e os estojos vazios caíram todos juntos ao lado de Jorge. Ari tornou a municiar seu revólver, apontou para a cabeça do baleado, ao mesmo tempo em que o sargento entrava lá com a espingarda pronta para ser disparada. Ari olhou para o PM e atirou, correndo em direção ao cômodo que era dividido pela cortina. O Sargento chegou ao lado de Jorge e disparou em direção ao fugitivo. Após este disparo, a espingarda 12 engasgou. Jorge via tudo em câmera lenta. Ari começou a descarregar seu revólver da outra peça em direção à sala. O PM teve que recuar. Vários disparos foram efetuados, inclusive pelos policiais que cercavam a casa. Jorge estava apavorado, sentia o ar frio penetrar pelo buraco da bala. Não tinha forças para levantar- se. Tudo acontecia para ele lentamente, cada segundo...uma eternidade, estava ficando escuro, o que via eram os objetos da casa na penumbra. Estava tudo agora em silêncio. Juntou todas suas forças e arrastou- se para a porta da saída. Para ele, a distância até lá era imensa, mas precisava sair da casa.

   Ferreira, policial militar, que estava de férias, morava na mesma rua onde acontecia a ocorrência e foi até o local, pois era consciente de seu dever e queria ajudar seus colegas, apesar de estar desarmado. Viu que Jorge estava caído, próximo à porta. Correu até ele e o pegou pelos braços e o puxou até a calçada. O sargento veio em sua ajuda e os dois levaram o policial baleado até sua viatura. Jorge foi colocado deitado no banco traseiro. Ferreira sentou no banco do caroneiro, segurando uma das mãos do baleado e Alexandre dirigiu rapidamente para o hospital. Jorge foi retirado do carro policial, colocado em uma maca e levado à uma sala de emergência. Via e ouvia como se estivesse longe dali. Tudo muito distante. Seu corpo, devido à perda de sangue, tremia, estava em estado de choque. Sentiu sua camisa ser cortada e tirada; o médico o examinou. Ouviu, ao longe, o doutor dizer para alguém que a morte de Jorge era questão de tempo, devido ao local em seu peito por onde a bala havia entrado. Jorge sentiu raiva de si mesmo e do mundo. Tinha a certeza da morte iminente. Sua vida passou em sua mente como um filme, todos os momentos marcantes vividos até ali. Queria viver, tinha que viver. Sentiu uma picada no braço direito, virou o olhar e soube que estava sendo aplicada uma injeção.Seu corpo amoleceu, sua mente se tranquilizou, estava incrivelmente se conformando com a situação. Não queria mais lutar contra a morte, não importava mais para ele a vida, fechou os olhos. O sonho que sua mãe havia lhe relatado, o viu, como se estivesse assistindo à cena. Passou- se um tempo, abriu os olhos. A enfermeira, que estava ao lado da maca, gritou pelo médico. Foi, novamente examinado e viu que o médico foi ao telefone e pediu uma ambulância. Você leitor deve estar se perguntando por que Jorge não foi operado, ou feitos outros procedimentos em seu socorro naquele hospital. Eu explico: era uma cidade do interior, aquele estabelecimento não tinha recursos e nem UTI, o médico era já um senhor de idade avançada, acostumado a pequenos procedimentos. Atendimentos mais complexos eram feitos em outra cidade, onde havia um hospital referência da região e para lá nosso policial foi levado.

    Jorge, ao dar entrada no hospital, onde foi operado, antes da tal cirurgia, estava mais consciente e atento a tudo que se passava a sua volta. Teve novamente medo ao entrar na sala cirúrgica. Seu medo, agora, era de ser anestesiado e não despertar mais. Ele foi operado, consertado seu interior do estrago causado pelo tiro. Após, foi levado a um quarto para recuperar- se. Ao acordar viu sua irmã ao seu lado. Ela veio para ficar com ele. No bairro Esperança, as coisas continuavam na mesma. Ari ainda encontrava- se no interior da casa, de vez em quando ocorriam disparos, tanto dele como dos policiais, que agora eram muitos, de toda a região, militares e civis. Até lanches foram providenciados para a força policial. Alexandre colocou dois coletes à prova de balas e queria entrar na casa, foi contido por outros colegas. O atirador refugiava- se no banheiro que era de alvenaria e o protegia. A ocorrência foi até a madrugada. Após gastar uma caixa de 50 tiros, Ari resolveu se entregar e ser preso. A maioria dos moradores ficaram nas proximidades acompanhando tudo, nem se importaram com o capítulo final da novela. É claro que sempre o capítulo final é reprisado no sábado. Os comerciantes, aqueles que tinham bares e armazéns próximos, ficaram abertos até o final da ocorrência. Oportunidade única de terem um lucro a mais. No final, a pistola de Jorge foi encontrada fora da casa, na calçada. Após alguns dias, no hospital, onde teve que fumar seus cigarros escondidos, na área de visitas, quando já podia andar, Jorge teve alta. A primeira coisa que quis saber foi o desfecho do caso. Alexandre foi o primeiro a lhe contar do acontecido, outras versões parecidas com as de seu colega também lhe foram relatadas por policiais militares, civis e espectadores. A casa do agressor ficou assim tipo queijo suíço, toda furadinha de tiros disparados de ambos os lados. Mas, nenhum disparo da polícia atingiu Ari, que foi preso intacto. Ou os policiais que lá estavam eram muito ruins de pontaria ou Ari tinha o “corpo fechado”.

    Há coisas inexplicáveis, que precisam ser analisadas e interpretadas, muito além do óbvio. O tiro que atingiu Jorge entrou próximo ao seu coração, traçou uma trajetória inexplicável, contornou suas costelas e saiu nas costas, na altura do rim esquerdo, como se realmente ele tivesse sido levantado e girado. Apenas um o acertou, dos seis disparados por Ari, em seu dia de fúria. Um projétil disparado tende a ir em linha reta. Se Jorge fosse atingido normalmente, o traçado seria reto ao pulmão esquerdo e, com certeza, fatal. Será que ele só está vivo, porque foi salvo por seu avô? Se tentamos interpretar o sonho de sua mãe, quando ela recebe de seu pai um bebê, dizendo:- toma seu filho, o inexplicável pode se tornar algo explicável e entendido. Será que os que partem e não vivem mais entre nós, zelam por nós....Sua mãe mandou rezar uma missa pela alma de seu pai agradecendo à vida do filho, protegida por ele.

Um comentário:

  1. Externar com palavras sentimentos e sensações que norteiam um universo bem mais rápido que membros do corpo físico, aptidão de poucos.
    Parabéns pelo rico conteudo de teu blog...

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