Conto 2
O Sonho
Jorge
pegou seu carro, naquele final de tarde, sexta- feira, queria ir
para Porto Alegre reencontrar sua família e descansar. Trabalhava e
morava durante a semana naquela pequena cidade. Era ele e outro
policial a trabalhar na DP. Antes, precisava passar na lavanderia da
cidade e pegar algumas roupas. Chegou lá, pegou o que queria e, ao
pagar, o proprietário lhe ofereceu um café. Recusou, já eram 18
horas e 30 minutos. Tinha que apanhar seu colega Alexandre na oficina
mecânica, uma revisão na viatura teria que ser feita no sábado.
Agradeceu a gentileza do dono do estabelecimento, e foi encontrar
seu parceiro da lida policial. Estacionou seu carro na entrada do
pátio da oficina. Seu colega não havia chegado ainda. Ficou
escutando música, fumando um cigarro, aguardando. Lembrou-se que
naquela manhã, sua mãe havia lhe telefonado e lhe contado um sonho
que ela tivera à noite. Ela lhe relatou que, na noite anterior,
sonhou que o pai dela havia, em sonho, lhe entregue um nenê e
dissera para ela- Toma seu filho. Sua mãe disse que o avô estava
todo vestido de branco. Ele já havia morrido há muito tempo. Jorge
não sabia por que, agora pensava sobre o telefonema de sua mãe.
Quando pequeno, fora criado pelo avô, que era um policial militar
aposentado. Jorge não seguiu os passos dele e optou entrar na
Polícia Civil. Aquele sonho seria um aviso? A mecânica ficava
às margens de uma rodovia. Logo em seguida, ouviu sons de sirenes
que se aproximavam, olhou para estrada e viu duas viaturas da Polícia
Militar em alta velocidade passarem por lá em direção ao Bairro
Esperança. Preocupou- se, deveria estar acontecendo alguma coisa
grave. A viatura da Delegacia chegou. Alexandre o chamou e disse que
era para ele entrar no carro. Ao entrar, ouviu dele que havia
ocorrido um tiroteio naquele bairro e um homem, informante da
polícia, havia sido atingido e o atirador havia se refugiado em uma
casa, que estava cercada por policiais militares. Rumaram para aquele
bairro.
Quando
chegaram na rua do fato, Jorge olhou e viu o informante caído,
ferido, no meio da pista. Uma viatura da PM estava parada e
atravessada e havia um policial atrás dela, que apontava uma
espingarda 12 em direção à casa. Outros policiais militares
estavam posicionados em pátios vizinhos cercando a residência. No
local, havia também a presença de muitos moradores da cidade, que
para lá foram curiosos do acontecimento e queriam assistir ao
desfecho. Ele desceu da viatura e pela calçada contrária à da
casa, onde pelo que viu o atirador estaria refugiado, caminhou até o
Sargento, que estava ao lado da viatura. Conversou com o militar ,
que relatou a Jorge, que um homem, conhecido como Ari, atirou contra
a vítima e correu para a casa onde residia. Ele ainda disse que o
baleado fora atingido por três disparos e a ambulância estava vindo
para socorrê-lo. Jorge conhecia Ari, sabia que ele nunca teve
problemas com a polícia anteriormente. Comentou isto com o PM, que
disse, também, que alguns moradores relataram para ele que Ari
havia ingerido cervejas, o dia todo, com um conhecido assaltante da
região que fora visitá- lo. Ele havia baleado o informante, quando
este passava em frente à casa, momentos antes. Após, havia entrado
na residência e estaria sozinho.O sargento tentou dialogar com ele,
que havia efetuado alguns disparos do interior para a rua. O policial
civil disse que iria na viatura buscar seu colete à prova de balas e
conversar com Alexandre que aguardava no veículo. O carro da
Delegacia fora estacionado há cerca de uma quadra da casa cercada,
juntamente com outras viaturas da PM. Quando estava no meio do
caminho, Jorge escutou um barulho, olhou para trás, para a casa
cercada, e viu o sargento chutando a porta. Em uma fração de
segundos, Jorge pensou-”ele vai entrar sozinho”. Correu em
direção ao colega militar. Ao chegar até ele, viu que a porta
abriu. Jorge entrou na sala de estar, já com sua . 40 empunhada e
pronta para o uso. A residência era de madeira, pequena, e no lado
contrário da parede esquerda havia dois quartos. Jorge foi até a
porta de cada quarto e espiou, nada do atirador. No final da sala,
em frente, tinha uma peça escondida por uma cortina floreada. O
sargento ficou aguardando na porta, na cobertura. Jorge parou em
frente à cortina, sua pistola na mão direita, apontada para frente.
Com a mão esquerda, abriu a cortina e se deparou com Ari à sua
frente, apontado para ele um revólver preto. O policial, em uma
fração de segundos, sentiu um calafrio e uma presença ao seu lado.
Ari disparou uma, duas, todas as seis... Jorge teve a sensação de
que estava sendo levantado e girado no ar e, ao mesmo tempo, sentiu
um impacto, como um coice atingindo seu peito, lado esquerdo e caiu
ao chão. Estava escurecendo. Agonizando, Jorge olhou para porta pela
qual havia entrado e por onde devia sair. Ela parecia estar muito,
muito longe, inalcançável. Apalpou o chão e não encontrou sua
arma. O atirador veio até ele. Viu o policial caído, com uma só
mão abriu a arma e os estojos vazios caíram todos juntos ao lado de
Jorge. Ari tornou a municiar seu revólver, apontou para a cabeça do
baleado, ao mesmo tempo em que o sargento entrava lá com a
espingarda pronta para ser disparada. Ari olhou para o PM e atirou,
correndo em direção ao cômodo que era dividido pela cortina. O
Sargento chegou ao lado de Jorge e disparou em direção ao fugitivo.
Após este disparo, a espingarda 12 engasgou. Jorge via tudo em
câmera lenta. Ari começou a descarregar seu revólver da outra peça
em direção à sala. O PM teve que recuar. Vários disparos foram
efetuados, inclusive pelos policiais que cercavam a casa. Jorge
estava apavorado, sentia o ar frio penetrar pelo buraco da bala. Não
tinha forças para levantar- se. Tudo acontecia para ele lentamente,
cada segundo...uma eternidade, estava ficando escuro, o que via eram
os objetos da casa na penumbra. Estava tudo agora em silêncio.
Juntou todas suas forças e arrastou- se para a porta da saída. Para
ele, a distância até lá era imensa, mas precisava sair da casa.
Ferreira,
policial militar, que estava de férias, morava na mesma rua onde
acontecia a ocorrência e foi até o local, pois era consciente de
seu dever e queria ajudar seus colegas, apesar de estar desarmado.
Viu que Jorge estava caído, próximo à porta. Correu até ele e o
pegou pelos braços e o puxou até a calçada. O sargento veio em sua
ajuda e os dois levaram o policial baleado até sua viatura. Jorge
foi colocado deitado no banco traseiro. Ferreira sentou no banco do
caroneiro, segurando uma das mãos do baleado e Alexandre dirigiu
rapidamente para o hospital. Jorge foi retirado do carro policial,
colocado em uma maca e levado à uma sala de emergência. Via e ouvia
como se estivesse longe dali. Tudo muito distante. Seu corpo, devido
à perda de sangue, tremia, estava em estado de choque. Sentiu sua
camisa ser cortada e tirada; o médico o examinou. Ouviu, ao longe, o
doutor dizer para alguém que a morte de Jorge era questão de tempo,
devido ao local em seu peito por onde a bala havia entrado. Jorge
sentiu raiva de si mesmo e do mundo. Tinha a certeza da morte
iminente. Sua vida passou em sua mente como um filme, todos os
momentos marcantes vividos até ali. Queria viver, tinha que viver.
Sentiu uma picada no braço direito, virou o olhar e soube que estava
sendo aplicada uma injeção.Seu corpo amoleceu, sua mente se
tranquilizou, estava incrivelmente se conformando com a situação.
Não queria mais lutar contra a morte, não importava mais para ele a
vida, fechou os olhos. O sonho que sua mãe havia lhe relatado, o
viu, como se estivesse assistindo à cena. Passou- se um tempo,
abriu os olhos. A enfermeira, que estava ao lado da maca, gritou pelo
médico. Foi, novamente examinado e viu que o médico foi ao telefone
e pediu uma ambulância. Você leitor deve estar se perguntando por
que Jorge não foi operado, ou feitos outros procedimentos em seu
socorro naquele hospital. Eu explico: era uma cidade do interior,
aquele estabelecimento não tinha recursos e nem UTI, o médico era
já um senhor de idade avançada, acostumado a pequenos
procedimentos. Atendimentos mais complexos eram feitos em outra
cidade, onde havia um hospital referência da região e para lá
nosso policial foi levado.
Jorge,
ao dar entrada no hospital, onde foi operado, antes da tal cirurgia,
estava mais consciente e atento a tudo que se passava a sua volta.
Teve novamente medo ao entrar na sala cirúrgica. Seu medo, agora,
era de ser anestesiado e não despertar mais. Ele foi operado,
consertado seu interior do estrago causado pelo tiro. Após, foi
levado a um quarto para recuperar- se. Ao acordar viu sua irmã ao
seu lado. Ela veio para ficar com ele. No bairro Esperança, as
coisas continuavam na mesma. Ari ainda encontrava- se no interior da
casa, de vez em quando ocorriam disparos, tanto dele como dos
policiais, que agora eram muitos, de toda a região, militares e
civis. Até lanches foram providenciados para a força policial.
Alexandre colocou dois coletes à prova de balas e queria entrar na
casa, foi contido por outros colegas. O atirador refugiava- se no
banheiro que era de alvenaria e o protegia. A ocorrência foi até a
madrugada. Após gastar uma caixa de 50 tiros, Ari resolveu se
entregar e ser preso. A maioria dos moradores ficaram nas
proximidades acompanhando tudo, nem se importaram com o capítulo
final da novela. É claro que sempre o capítulo final é reprisado
no sábado. Os comerciantes, aqueles que tinham bares e armazéns
próximos, ficaram abertos até o final da ocorrência. Oportunidade
única de terem um lucro a mais. No final, a pistola de Jorge foi
encontrada fora da casa, na calçada. Após alguns dias, no
hospital, onde teve que fumar seus cigarros escondidos, na área de
visitas, quando já podia andar, Jorge teve alta. A primeira coisa
que quis saber foi o desfecho do caso. Alexandre foi o primeiro a lhe
contar do acontecido, outras versões parecidas com as de seu colega
também lhe foram relatadas por policiais militares, civis e
espectadores. A casa do agressor ficou assim tipo queijo suíço, toda
furadinha de tiros disparados de ambos os lados. Mas, nenhum disparo
da polícia atingiu Ari, que foi preso intacto. Ou os policiais que
lá estavam eram muito ruins de pontaria ou Ari tinha o “corpo
fechado”.
Há
coisas inexplicáveis, que precisam ser analisadas e interpretadas,
muito além do óbvio. O tiro que atingiu Jorge entrou próximo ao
seu coração, traçou uma trajetória inexplicável, contornou suas
costelas e saiu nas costas, na altura do rim esquerdo, como se
realmente ele tivesse sido levantado e girado. Apenas um o acertou,
dos seis disparados por Ari, em seu dia de fúria. Um projétil
disparado tende a ir em linha reta. Se Jorge fosse atingido
normalmente, o traçado seria reto ao pulmão esquerdo e, com
certeza, fatal. Será que ele só está vivo, porque foi salvo por
seu avô? Se tentamos interpretar o sonho de sua mãe, quando ela
recebe de seu pai um bebê, dizendo:- toma seu filho, o inexplicável
pode se tornar algo explicável e entendido. Será que os que partem
e não vivem mais entre nós, zelam por nós....Sua mãe mandou rezar
uma missa pela alma de seu pai agradecendo à vida do filho,
protegida por ele.
Externar com palavras sentimentos e sensações que norteiam um universo bem mais rápido que membros do corpo físico, aptidão de poucos.
ResponderExcluirParabéns pelo rico conteudo de teu blog...