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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Sozinho em Casa

Conto 4


Sozinho em Casa


      A casa era grande, tinha várias entradas: pela garagem, pelo quarto do casal, pela porta da frente e pela dos fundos. O terreno, meio quarteirão, todo cercado, com grades na frente e tela nos fundos e nas laterais. No pátio, via-se um quiosque, piscina, vegetação exuberante. Na divisa dos fundos, havia uma mata e, após esta, uma estrada. Em cada lado, outras casas. A moradia era situada no final da rua, penúltima construção, lado esquerdo de quem nela entrava. A garagem enorme, três carros poderiam ser guardados ali. A porta da garagem ficava próxima à porta principal da casa. Pela garagem poderia se acessar a cozinha ou o escritório, que era à direita, no corredor que levava à enorme sala de estar. Ali residia uma família: pai, mãe e dois filhos adolescentes. O homem trabalhava em outra cidade, vinha para casa, na maioria das vezes, só nos finais de semana. Uma família normal. Rex, o cão da raça pastor alemão, ficava solto pelo terreno e tinha acesso à casa. Era uma maravilha deixar a casa aberta, no verão. A mãe era professora em turno integral, trabalhava em duas escolas. Não havia uma grande preocupação com a segurança. Moravam em uma cidade pequena, quase sem nenhuma violência. Lá, só havia pequenos furtos e muito esporádicos. Um ótimo lugar para se viver e criar os filhos. Moravam naquela casa há cerca de um ano, quando para esta cidade se mudaram. Antes, moraram em Portugal, onde o pai trabalhou. Naquele país luso, nasceram os dois filhos. Os vizinhos eram ótimas pessoas e amigas da família.

      Em uma quinta-feira, tarde de verão. Marcos, sozinho em casa, estava navegando na internet, no computador do escritório. Conversava com amigos no facebook. O barulho de um carro entrando no pátio chamou sua atenção. Pensou quem poderia ser. A mãe estava na escola, a irmã estudando. O pai estava trabalhando e só viria na sexta-feira. Rex, que estava com ele, foi para fora. O veículo parou, a porta abriu e fechou. O garoto ficou com medo. Pegou seu telefone celular e foi para baixo da bancada do computador. Ouviu os passos de alguém entrando na casa. Estranhou que o cão não retornou para junto dele. Num misto de medo e curiosidade, escutou um barulho vindo da cozinha. Sabia que logo sua mãe regressaria. Encheu-se de coragem, levantou- se rapidamente e olhou pela janela. O veículo era um furgão branco. Pensou que deveria ser mais de uma pessoa. Voltou para o esconderijo e mandou uma mensagem, pelo celular, para sua mãe. Relatou o que estava acontecendo e que estava com medo. Agora havia barulho no quarto de seus pais. Já eram 18 horas. Sua mãe, quando recebeu a mensagem, estava saindo da escola entrando em seu carro. Ficou assustada e preocupada. Ligou para a PM. O policial que atendeu a ligação anotou o endereço e os dados da ocorrência e gerou um atendimento. Informou a ela que as duas viaturas estavam atendendo ocorrências no interior e logo uma delas iria à casa dela. A mulher estava aflita, ligou para o telefone de seu esposo. Este não atendeu, ligou outras vezes e nada. Lembrou- se, então, de que o pai de um dos colegas de escola e amigo de seu filho era policial civil e, como seu esposo, trabalhava em uma outra cidade. Quem sabe o pai deste menino poderia estar em casa, pensou. Ligou para o celular deste amigo do filho. Não sabia se a vitura da PM iria logo a sua casa. Seu filho estava lá, precisava de ajuda. Ao atender o celular, o amigo de seu filho informou para ela que seu pai estava em casa. Pediu para falar com ele e relatou para o policial o que estava ocorrendo em sua casa. O homem se solidarizou e disse que iria com ela à casa ver o que acontecia.

      Na casa, assustado, Marcos escutou alguém entrando no furgão e o portão da entrada de carros abrindo. Será que foram embora ou alguém ficou na casa, pensou. Estava escurecendo. Após o veículo sair da propriedade, o portão fechou, era automático. O menino correu para a vegetação espessa que ficava ao lado da divisa da casa à direita. No pátio, Rex o viu e ficou com ele. Quando o policial militar atendeu o telefonema da mãe relatando o que ocorria em sua residência. Estava no prédio da PM um repórter da rádio e do jornal local. Em cidades pequenas, quem é dono da rádio é também do jornal, quase sempre. O PM repassou os dados, via rádio, para as viaturas, do que estava acontecendo na casa de Marcos. O repórter ouviu e se interessou pela história, relatando-a, pelo telefone celular, para o locutor da emissora. Para não perder tempo, pegou o veículo da empresa e correu para a rua onde acontecia o fato. O locutor deu para seus ouvintes, em tom de sensacionalismo, uma breve chamada do acontecimento. Parece que há refens- anunciou o radialista. Enquanto isso, a mãe de Marcos e o policial civil também se deslocavam até a casa dela. No trajeto, a mãe ligava para o celular do filho e nada. Marcos, ao sair, esquecera o celular na casa. Ela tentou outras vezes e ligou para o seu marido e nada de ele atender também. Ela estava aflita. Quando acessaram sua rua, atrás já seguiam duas viaturas da PM e o carro da reportagem. As viaturas estacionaram de frente para sua casa com os faróis acesos. Uma era uma caminhonete com quatro policiais de roupas camufladas e boinas pretas. Na outra, dois policiais com fardamento normal. Marcos, ao ver a movimentação, aliviado, saiu da vegetação. A mãe abriu o portão e ele correu para ela. O policial civil conversou com os militares. O garoto dizia que não sabia se havia alguém na casa ou não. Os policiais decidiram fazer uma revista na moradia. Dois boinas pretas correram pelo pátio para se posicionarem na parte dos fundos. Outros dois se posicionaram estrategicamente nas laterais. O policial civil e dois PMS foram até a casa e entraram. A mãe agora estava preocupada com o marido que não atendia o telefone. Será que ele não fora sequestrado e trazido até a casa. A residência foi revistada e ninguém foi encontrado. Nada parecia estar fora da normalidade. Na rua, começaram a se juntar curiosos. A mãe foi convidada a entrar na casa e conferir se nada estava faltando. Ela olhou tudo e informou que nada faltava. O policial civil lhe perguntou se ela havia conseguido falar com seu esposo. Ela respondeu que não e comentou sua preocupação. Então, o policial lhe perguntou onde ele costumava ir quando estava em casa, quais amigos tinha ali, etc. Ela lembrou- se de que, às vezes, ele vinha mais cedo que de costume e ia até o clube do bairro jogar bola. Os policiais conversaram e resolveram ir até o local. O repórter foi informado de que estava tudo normal. Ficou decepcionado e foi embora. Tudo parecia ser uma grande reportagem. Os policiais comentaram que a família tinha um cão pastor alemão, meio inútil, se a casa foi invadida, ele nada fez. Nem um latido sequer. A mãe disse que o cachorro era manso, meio preguiçoso.


      O policial civil foi com a mulher e o filho dela, as viaturas da PM foram atrás. Ao entrarem no estacionamento do clube, surpresos, avistaram um furgão branco. Todos desceram e foram até ele. As placas eram da cidade onde o esposo da mulher trabalhava. O menino foi até o interior do ginásio e voltou com seu pai. O homem disse que havia deixado seu carro na empresa e decidido vir com o furgão da mesma. Que havia passado em casa e trocado de roupa, colocado o uniforme de seu time e que não havia visto seu filho. Como estava no clube, ele havia deixado seu telefone no veículo. Pai, mãe e filho se abraçaram. Tudo não passara de um pequeno susto e da mente criativa de um menino sozinho em casa, assustado.

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