Conto 4
Sozinho em Casa
Sozinho em Casa
A casa era grande, tinha
várias entradas: pela garagem, pelo quarto do casal, pela porta da
frente e pela dos fundos. O terreno, meio quarteirão, todo cercado,
com grades na frente e tela nos fundos e nas laterais. No pátio,
via-se um quiosque, piscina, vegetação exuberante. Na divisa dos
fundos, havia uma mata e, após esta, uma estrada. Em cada lado,
outras casas. A moradia era situada no final da rua, penúltima
construção, lado esquerdo de quem nela entrava. A garagem enorme,
três carros poderiam ser guardados ali. A porta da garagem ficava
próxima à porta principal da casa. Pela garagem poderia se acessar
a cozinha ou o escritório, que era à direita, no corredor que
levava à enorme sala de estar.
Ali residia uma família: pai, mãe e dois filhos adolescentes. O
homem trabalhava em outra cidade, vinha para casa, na maioria das
vezes, só nos finais de semana. Uma família normal. Rex, o cão da
raça pastor alemão, ficava solto pelo terreno e tinha acesso à
casa. Era uma maravilha deixar a casa aberta, no verão. A mãe era
professora em turno integral, trabalhava em duas escolas. Não havia
uma grande preocupação com a segurança. Moravam em uma cidade
pequena, quase sem nenhuma violência. Lá, só havia pequenos furtos
e muito esporádicos. Um ótimo lugar para se viver e criar os
filhos. Moravam naquela casa há cerca de um ano, quando para esta
cidade se mudaram. Antes, moraram em Portugal, onde o pai trabalhou.
Naquele país luso, nasceram os dois filhos. Os vizinhos eram ótimas
pessoas e amigas da família.
Em uma quinta-feira,
tarde de verão. Marcos, sozinho em casa, estava navegando na
internet, no computador do escritório. Conversava com amigos no
facebook. O barulho de um carro entrando no pátio chamou sua
atenção. Pensou quem poderia ser. A mãe estava na escola, a irmã
estudando. O pai estava trabalhando e só viria na sexta-feira. Rex,
que estava com ele, foi para fora. O veículo parou, a porta abriu e
fechou. O garoto ficou com medo. Pegou seu telefone celular e foi
para baixo da bancada do computador. Ouviu os passos de alguém
entrando na casa. Estranhou que o cão não retornou para junto dele.
Num misto de medo e curiosidade, escutou um barulho vindo da cozinha.
Sabia que logo sua mãe regressaria. Encheu-se de coragem, levantou-
se rapidamente e olhou pela janela. O veículo era um furgão branco.
Pensou que deveria ser mais de uma pessoa. Voltou para o esconderijo
e mandou uma mensagem, pelo celular, para sua mãe. Relatou o que
estava acontecendo e que estava com medo. Agora havia barulho no
quarto de seus pais. Já eram 18 horas. Sua mãe, quando recebeu a
mensagem, estava saindo da escola entrando em seu carro. Ficou
assustada e preocupada. Ligou para a PM. O policial que atendeu a
ligação anotou o endereço e os dados da ocorrência e gerou um
atendimento. Informou a ela que as duas viaturas estavam atendendo
ocorrências no interior e logo uma delas iria à casa dela. A mulher
estava aflita, ligou para o telefone de seu esposo. Este não
atendeu, ligou outras vezes e nada. Lembrou- se, então, de que o
pai de um dos colegas de escola e amigo de seu filho era policial
civil e, como seu esposo, trabalhava em uma outra cidade. Quem sabe o
pai deste menino poderia estar em casa, pensou. Ligou para o celular
deste amigo do filho. Não sabia se a vitura da PM iria logo a sua
casa. Seu filho estava lá, precisava de ajuda. Ao atender o celular,
o amigo de seu filho informou para ela que seu pai estava em casa.
Pediu para falar com ele e relatou para o policial o que estava
ocorrendo em sua casa. O homem se solidarizou e disse que iria com
ela à casa ver o que acontecia.
Na casa, assustado,
Marcos escutou alguém entrando no furgão e o portão da entrada de
carros abrindo. Será que foram embora ou alguém ficou na casa,
pensou. Estava escurecendo. Após o veículo sair da propriedade, o
portão fechou, era automático. O menino correu para a vegetação
espessa que ficava ao lado da divisa da casa à direita. No pátio,
Rex o viu e ficou com ele. Quando o policial militar atendeu o
telefonema da mãe relatando o que ocorria em sua residência. Estava
no prédio da PM um repórter da rádio e do jornal local. Em cidades
pequenas, quem é dono da rádio é também do jornal, quase sempre.
O PM repassou os dados, via rádio, para as viaturas, do que estava
acontecendo na casa de Marcos. O repórter ouviu e se interessou pela
história, relatando-a, pelo telefone celular, para o locutor da
emissora. Para não perder tempo, pegou o veículo da empresa e
correu para a rua onde acontecia o fato. O locutor deu para seus
ouvintes, em tom de sensacionalismo, uma breve chamada do
acontecimento. Parece que há refens- anunciou o radialista. Enquanto
isso, a mãe de Marcos e o policial civil também se deslocavam até
a casa dela. No trajeto, a mãe ligava para o celular do filho e
nada. Marcos, ao sair, esquecera o celular na casa. Ela tentou outras
vezes e ligou para o seu marido e nada de ele atender também. Ela
estava aflita. Quando acessaram sua rua, atrás já seguiam duas
viaturas da PM e o carro da reportagem. As viaturas estacionaram de
frente para sua casa com os faróis acesos. Uma era uma caminhonete
com quatro policiais de roupas camufladas e boinas pretas. Na outra,
dois policiais com fardamento normal. Marcos, ao ver a movimentação,
aliviado, saiu da vegetação. A mãe abriu o portão e ele correu
para ela. O policial civil conversou com os militares. O garoto dizia
que não sabia se havia alguém na casa ou não. Os policiais
decidiram fazer uma revista na moradia. Dois boinas pretas correram
pelo pátio para se posicionarem na parte dos fundos. Outros dois se
posicionaram estrategicamente nas laterais. O policial civil e dois
PMS foram até a casa e entraram. A mãe agora estava preocupada com
o marido que não atendia o telefone. Será que ele não fora
sequestrado e trazido até a casa. A residência foi revistada e
ninguém foi encontrado. Nada parecia estar fora da normalidade. Na
rua, começaram a se juntar curiosos. A mãe foi convidada a entrar
na casa e conferir se nada estava faltando. Ela olhou tudo e informou
que nada faltava. O policial civil lhe perguntou se ela havia
conseguido falar com seu esposo. Ela respondeu que não e comentou
sua preocupação. Então, o policial lhe perguntou onde ele
costumava ir quando estava em casa, quais amigos tinha ali, etc. Ela
lembrou- se de que, às vezes, ele vinha mais cedo que de costume e
ia até o clube do bairro jogar bola. Os policiais conversaram e
resolveram ir até o local. O repórter foi informado de que estava
tudo normal. Ficou decepcionado e foi embora. Tudo parecia ser uma
grande reportagem. Os policiais comentaram que a família tinha um
cão pastor alemão, meio inútil, se a casa foi invadida, ele nada
fez. Nem um latido sequer. A mãe disse que o cachorro era manso,
meio preguiçoso.
O policial civil foi com
a mulher e o filho dela, as viaturas da PM foram atrás. Ao entrarem
no estacionamento do clube, surpresos, avistaram um furgão branco.
Todos desceram e foram até ele. As placas eram da cidade onde o
esposo da mulher trabalhava. O menino foi até o interior do ginásio
e voltou com seu pai. O homem disse que havia deixado seu carro na
empresa e decidido vir com o furgão da mesma. Que havia passado em
casa e trocado de roupa, colocado o uniforme de seu time e que não
havia visto seu filho. Como estava no clube, ele havia deixado seu
telefone no veículo. Pai, mãe e filho se abraçaram. Tudo não
passara de um pequeno susto e da mente criativa de um menino sozinho
em casa, assustado.
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