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sábado, 18 de maio de 2013



Conto 1

Três Mortes e uma Dívida


    Acordei com o celular tocando, levantei, olhei para o relógio, eram 7 horas, manhã fria de um sábado. Trabalhava, naquela cidade pequena, sozinho, lugar de origem alemã, tranquilo, pacato, sem muitas emoções, apenas ocorrências básicas. Atendi o telefone. Era um PM, me disse que estavam precisando que fosse até a Localidade do Salto, porque uma família havia sumido e no local tinha vestígios de sangue. Fui para lá, ficava há cerca de 10 quilômetros de onde morava. Era no interior, zona rural, em frente à propriedade havia várias pessoas curiosas, moradores da redondeza. Dois policiais militares isolavam a entrada. Um deles, o PM Peixoto veio até mim e disse, que ali moravam um homem, sua mulher e um filho. Ele relatou que, naquela manhã, a professora do garoto, que tinha nove anos, foi ali, porque era o aniversário da criança e ela estaria ajudando a organizar a festa de aniversário, que seria na sociedade da comunidade, naquela tarde. O garoto iria comemorar seus nove anos. Falei com a professora, que era bastante jovem, ela repetiu o que o PM havia me dito e ainda disse, que foi até a cozinha e que encontrara a porta aberta, por isto entrou. Não encontrou ninguém e ao ver que na cozinha tinha manchas de sangue no chão e nas paredes, resolveu deixar o local e ir até um vizinho ligar para a polícia. Ela também achou estranho que o carro santana da família não estava na garagem. Entrei na propriedade, fui até a cozinha, acompanhado de Peixoto, entrei e vi gotas de sangue nas paredes e no chão, o cômodo era pequeno.O sangue do piso estava espalhado, como que se tivessem tentado limpar com um pano úmido. Sei que gotas de sangue, quando atingem a parede, é porque alguém foi golpeado na cabeça. Pela altura das manchas a pessoa golpeada estaria em pé. Na mesa havia um caderno aberto e lápis espalhados, olhei para ele e notei que era da criança, que deveria estar fazendo a lição, olhei para a folha que escrevia, vi que não havia terminado seu tema de casa. Em um dos balcões, ao lado do fogão, tinha um portarretrato do filho, uma garoto pequeno, camiseta do grêmio; pela foto dava para ver que era uma criança saudável e feliz. Neste balcão estava um outro caderno, tipo universitário, percebi que uma página estava rasgada na metade. Ao folhear, vi que havia nomes e valores anotados ao lado. Peixoto comentou que o pai era um agiota conhecido na região, que emprestava dinheiro a juros. O restante da residência estava normal, as camas estavam arrumadas, como se ninguém houvesse dormido na noite. O outro PM, Santana, chegou até nós e disse que ao lado do poço, que ficava próximo à casa, tinha um balde e em seu interior um pouco de água avermelhada e um pano. Olhamos para dentro do poço e vimos que havia outros panos lá dentro e sangue. Pedi para que os PMS chamassem os bombeiros, para que fosse olhado o interior do poço. Da cozinha até a garagem, que ficava independente da casa, há cerca de 10 metros, tinha, a partir da porta, um caminho de brita. Segui por este caminho, olhos firmes no chão, olhando as pedras de brita, vi que havia gotas de sangue, que seguia por este trilho. Na garagem, próximo à porta, que estava aberta,havia um macaco de carro jogado no chão e um pouco de sangue. Logo em seguida, chegou ao local uma viatura dos bombeiros, vinda de outra cidade. Chegaram rápido. Dois soldados desceram e conversaram comigo, expliquei a eles a situação do poço. Voltaram para a viatura, pegaram cordas, roupas apropriadas e foram para o local. Olhei para o relógio, eram agora 9 horas. Fui até lá e acompanhei o trabalho dos bombeiros. Um deles havia entrado no poço, que não era fundo, parecia ter cerca de 10 metros. Os panos que lá estavam foram tirados. O bombeiro que havia entrado, gritou que não tinha nenhum corpo lá. Fui com os bombeiros até a entrada da propriedade, quando assinava a ficha de ocorrência deles, a justificativa do deslocamento, chegou até nós um morador vizinho. Ele disse que havia ouvido comentários, durante aquela manhã, que na rodovia que liga a cidade à serra, um veiculo incendiando havia descido um penhasco. Os bombeiros disseram que não foram chamados para nenhum acidente naquela rodovia na noite ou madrugada anterior. Os Policiais Militares disseram nada saber. Discutimos as várias possibilidades deste fato e do que foi relatado pelo vizinho e resolvemos dar uma olhada na rodovia. Pedi que os Policiais Militares continuassem no local, fazendo o isolamento. A viatura do corpo de bombeiros saiu primeiro. Questionei os vizinhos mais próximos, que diseram não saberem de nada, que nenhum barulho escutaram e nada sabiam do que havia acontecido.

     Liguei para o Delegado plantonista expliquei para ele o que estava acontecendo, e fui para a rodovia. Ela tem várias curvas e segue em direção à serra. Partindo da cidade, no lado direito, há barrancos e penhascos. No deslocamento, ia pensando no cenário que vi na propriedade da família desaparecida, alguma morte com certeza ocorrera. Me perguntava-” será que mataram todos os três”. Ao fazer uma curva à esquerda, bastante acentuada, quando a venci, vi a viatura dos bombeiros estacionada no acostamento. Os dois soldados gesticulavam e olhavam para baixo, cheguei até eles e vi, sem dúvidas, havia um carro incendiado, totalmente queimado, há uns 15 metros ladeira abaixo. Um dos bombeiros desceu por uma corda, que foi ancorada na caminhonete deles. Ao retornar, este bombeiro relatou que era um veículo santana, totalmente queimado e, na sua proximidade, fora do carro, havia três corpos totalmente carbonizados. Um era pequeno, de uma criança. Pensei, lá estava a família sumida. Olhei a rodovia, não havia sinais de derrapagem ou freada. Foi acionada uma outra viatura dos bombeiros, era preciso mais homens para que os corpos e o veículo fossem retirados. Acionei por telefone a perícia para a casa. Havia, agora, a certeza de um crime. Os corpos foram içados por cordas. Ao olhá-los dava para ver que foram mortos, golpeados por algo. Mesmo totalmente carbonizados dava para ver as lesões que sofreram. Lembrei-me que o pai era agiota, este poderia ser o motivo. Lembrei- me, também, do caderno e as anotações de nomes e valores. Poderia começar por aí a investigação. Olhei o relógio já eram 16 horas. Voltei para a casa das vítimas. Os corpos foram encaminhados para a necropsia. Iria aguardar na propriedade a chegada da perícia, que viria de Porto Alegre. Novamente, na propriedade da família, conversei com um irmão da mulher morta. Ele me relatou que ela era adotada e que o menino era também adotado. O marido era filho único. Segundo ele, a família vivia da agiotagem. O pai emprestava dinheiro a juros e sempre que ia fazer uma cobrança, levava a mulher e o filho. Ele era insistente com seus devedores. Eles tinham muito dinheiro emprestado. Viviam uma vida simples, o veículo santana era antigo e a casa sem conforto nenhum, somente o essencial. A perícia foi feita, um dos peritos me informou que na cozinha havia ocorrido uma luta, que o menino possivelmente estaria fazendo os temas da escola e que um deles veio machucado da garagem em direção à casa. Agradeci ao trabalho deles e foram embora. Já não havia mais nada, por enquanto, a fazer lá. Dispensei os PMS, que assim como eu estavam cansados. Ainda havia em frente à propriedade um número grande de curiosos. Já eram quase 20 horas. Fui para a Delegacia fazer o BO, a apreensão do caderno com as anotações de nomes e valores e relatar ao Delegado o que estava acontecendo até o momento. Fumei o último cigarro, precisava comprar mais. Olhei o relógio, eram 22 horas, fechei a Delegacia. Só havia um lugar aberto naquele horário, onde poderia comprar meu tabaco, fui para lá.

     Entrei no boteco e vi que havia três homens sentados à uma mesa, jogavam cartas e bebiam cervejas. Fui até o balcão e pedi uma carteira de cigarros, da marca que fumo. Um dos homens levantou e me disse: - “Espero que encontre quem matou a família, matar uma criança daquele jeito, tomara que o filha da puta que fez isto morra na cadeia”. E ele quis saber mais detalhes. Olhei para ele, vi que era um homem alto, gordo e forte, parecia o sargento Garcia da Série Zorro. Claro era de origem alemã, tinha bigodes ralos, já havia visto ele pela cidade. Respondi qualquer coisa e sai. Fui para casa.Tentei comer alguma coisa, não havia ingerido nada o dia todo. Fumara uma carteira de cigarros. Tentei dormir, não consegui. Liguei para o DML e um funcionário, auxiliar de perícia confirmou que as vítimas haviam sido mortas a golpes de um objeto contundente. O relógio em meu pulso marcava 1 hora. Nada de sono. Resolvi voltar à propriedade das vítimas. Pensei, às vezes, o assassino volta ao local do crime. Agora tinha conhecimento que a arma do crime era um objeto contundente. Fui para lá. A propriedade ficava às margens de uma rua asfaltada, escuridão total, as casas vizinhas eram longe, a mais próxima ficava do lado esquerdo, eram propriedades como sítios. Estacionei a viatura em frente à entrada da propriedade. Observei o local fumando um cigarro. Meus pensamentos estavam a mil. Olhei em direção à casa e tive a vaga sensação de ver um vulto. Apaguei o cigarro, saquei minha pistola e fui em direção à casa. Escutei barulhos na cozinha. Dei a volta, resolvi chegar pelo outro lado, se houvesse alguém lá dentro, e se sabia que eu estava também no local, fugiria por este lado, devido à vegetação. Olhei para a cozinha, alguém apagou uma lanterna. Havia cochichos. Fui me aproximando da porta, com o corpo colado na parede. Quando cheguei na quina da parede que estava, lateral à porta da cozinha, vi três pessoas saindo. Gritei para que parassem e disse que era polícia. Alguém, que não era nenhum dos três que estavam na minha frente, correu para o mato saindo do galpão, localizado na parte de baixo do terreno. Os três ficaram imóveis. Mandei que fossem para a parede e ficassem em posição de revista. Obedeceram. Revistei um por um e lembrei que havia visto eles na frente da casa naquele dia. Questionei o que eles estavam fazendo ali. Responderam que deviam dinheiro para o morto e estavam procurando seus cheques dados como garantia de empréstimos. Não queriam ser vistos como suspeitos e não tinham nada a ver com as mortes, eram amigos e vizinhos da família. Levei-os até a viatura, anotei seus nomes e solicitei uma viatura da Brigada Militar, para que me auxiliasse na condução deles até a DP. Terminei a noite ouvindo-os. Tive a certeza de que nenhum deles estava envolvido nas mortes. Os liberei. Sabia que as dívidas para com o morto poderia ser um motivo para as mortes, não foi localizado nenhum cheque ou valores na casa naquele dia, apenas o caderno. Examinei ele, havia muitos nomes, inclusive de empresários e os valores anotados eram altos. Peguei uma folha e anotei os nomes com os valores devidos e os juros pagos, colocando primeiro os valores mais altos. Precisava ouvir todos. O assassino tinha que estar entre estes 50 nomes. Liguei para o irmão da mulher que fora assassinada e pedi para que ele me encontrasse na propriedade naquela manhã. Após, fui até o posto da Brigada Militar e pedi ao comandante que me cedesse dois soldados. Precisava fazer uma revista minuciosa na propriedade.

     Levei os dois PMS comigo. Quando chegamos, lá já estava o irmão da vítima. Na frente, vários curiosos, alguns repórteres locais e da região faziam entrevistas com os vizinhos e tiravam fotos. Não quis falar com nenhum deles, dizer o quê? Começamos a revista pela casa. A única coisa que chamou minha atenção é que em uma das gavetas de uma cômoda, em um quarto, onde havia várias bugigangas, tinha um absorvente feminino sujo e no fundo desta gaveta uma quantia em dinheiro antigo, como se tivesse sido lá esquecido. Após a revista da casa, fomos para o galpão, onde havia ferramentas, latas vazias e outros objetos da lida no sítio. Em uma das paredes havia prateleiras, e uma delas me chamou atenção, porque vi uma lata de tinta, já meio enferrujada e em cima dela um outro absorvente feminino sujo. Nenhum de nós tocou nesta lata. Por nojo daquele absorvente sujo. Terminamos de revistar toda a propriedade, não encontramos valores em dinheiro, a não ser a quantia antiga, nenhum cheque, nada, nem algo que poderia ser a arma dos crimes. O enterro seria à tarde. Liberei o irmão para o final do velório e fui comer alguma coisa no centro da cidade com os PMS. Durante o almoço, discutimos as mortes, o motivo com certeza era agiotagem, poderia ser alguém que estava se sentindo pressionado pelo homem. Ele emprestava um montante e todos os meses cobrava os juros. Comentamos, também, sobre os absorventes sujos, na gaveta e na lata. Aquela velha lata, que nem um de nós teve a coragem de olhar, por causa de um absorvente sujo em cima. Chegamos à conclusão de que devíamos voltar e olhar em seu interior. Resolvemos voltar, mas depois do almoço, é claro. Terminamos a refeição e voltamos à propriedade, no galpão, pegamos um graveto e tiramos o absorvente de cima da lata. Peguei-a abri...em seu interior havia vários cheques, mais de cem. Todos preenchidos e assinados por pessoas diversas e com as datas em branco. Somei os valores e calculei cerca de R$ 150.000,00. Muitos donos destes cheques já havia visto no caderno, seus nomes. Aquele absorvente era algo que evitaria que alguém, que entrasse ali, deixasse de olhar a lata.

     Dois meses das mortes se passaram. Ouvi todos da lista que tinha. Todos pareciam suspeitos, mas provas contra alguns deles não havia, apenas as dívidas, que possuíam com o pai da família morta. Muitos pareciam estar felizes, sabendo que não teriam que pagar mais nada do dinheiro emprestado, nem os juros e nem o montante: um alívio financeiro para eles. Não havia mais na cidade comentários intensos, como antes, a respeito das mortes. A imprensa, que antes ligava ou ia à Delegacia, quase todos os dias, buscando novidades do caso, sumiu. Certo dia, no começo da tarde, chegou à Delegacia, um comerciante, que tinha consigo um cheque de uma mulher. Relatou-me que um cliente havia ido ao seu estabelecimento e feito compras, pagando com este cheque, há uma semana atrás. Como o homem era seu conhecido e consertava aparelhos de refrigeração, e disse ter recebido o cheque como pagamento de um serviço, ele aceitou e até deu troco. O comerciante depositou o cheque, mas não foi compensado, porque havia sido cancelado pela correntista. Como a cidade era pequena, este homem localizou a dona do cheque e foi informado, por ela, que esta folha havia sido dada como garantia em um empréstimo que fizera com o pai da família morta. O homem me forneceu o nome de seu cliente. Consultei o nome no sistema policial, puxei a foto e gelei. Era o Sargento Garcia! Aquele que havia me interpelado no boteco, na noite dos crimes, e dito que o matador deveria apodrecer na cadeia. Anotei o endereço e fui para a casa dele, que ficava no interior do município. Lá só estava um dos filhos dele, de 13 anos. Disse que os pais estavam trabalhando. Perguntei onde o pai trabalhava. Respondeu que o pai estava fazendo um serviço em uma empresa de laticínios em uma outra cidade próxima e que ele só regressaria à noite. Perguntei, ainda, que carro o pai estava usando. O filho respondeu que era uma belina prata. Sabia onde era a empresa a que ele se referia. Ficava há 20 quilômetros, rumei para lá. Após dirigir por estradas asfaltadas e de chão, cheguei à empresa. Lá, fui informado de que o suspeito havia terminado o serviço, recebido por ele e pedido mais uma quatia adiantada, alegando que pagaria em um outro serviço. Ele havia saído apressado e rumado no sentido Porto Alegre, dirigindo sua belina prata. Liguei para a Polícia Rodoviária Federal e pedi que os policiais ficassem em alerta e tentassem abordar o suspeito. Voltei para casa dele e aguardei o filho mais velho e a esposa regressarem. Ela me informou que ele havia ligado para seu serviço e dito que precisava sumir, que a polícia estava atrás dele por causa de um cheque. Não sei como ele já sabia que estava sendo procurado. O filho mais velho me contou que das mortes nada sabia e que iria ajudar no que fosse preciso para localizar seu pai. Expliquei que ele era apenas um suspeito. Eles ainda disseram que era costume o pai sair à noite para fazer algum conserto emergencial para algum cliente e que não sabiam nada do cheque. Confirmaram que o pai conhecia a família morta e já havia pedido dinheiro emprestado para o homem. O filho menor de 13 anos me pareceu meio estranho, meio assustado. Queria falar com ele, mas não naquele momento. Intimei todos para comparecerem à Delegacia de Policia no outro dia. Passei o restante do dia e a noite a vigiar a casa do suspeito de longe, desejando o retorno dele. Mas ele não veio. Senti que, finalmente, tinha algo concreto, um suspeito, um motivo, já que o nome dele não constava na lista e poderia estar no pedaço da folha do caderno que faltava e o cheque que ele havia dado em pagamento, estava na posse do morto.

     No horário marcado, a mulher e os dois filhos do suspeito compareceram à delegacia. Ouvi primeiro a mulher, que sustentou o que havia me dito no dia anterior. Disse, também, que seu marido não havia mais entrado em contato. O filho mais velho confirmou oque havia dito no dia anterior, e para a noite dos crimes relatou que estava na escola e, após, foi para a casa de amigos com a namorada.O menino de 13 anos, ao ser ouvido, ficou bastante nervoso. Confessou que, na noite das mortes, estava dormindo e que seu pai o acordou, dizendo que precisava de sua ajuda. Colocou o menino no carro e foi com ele para a casa das vítimas. No caminho, o pai lhe disse o que tinha feito, que havia matado três pessoas e queria que ele o ajudasse a colocar os corpos no carro da família, e que levasse o carro dele até a rodovia da serra, para que as mortes parecessem um acidente. O garoto sabia dirigir, o pai havia lhe ensinado. Disse, também, que na propriedade da família o corpo da mulher e da criança estavam na cozinha, o do homem próximo à porta , na pequena área. O menino ajudou o pai a colocar os corpos no santana, que foi levado até as proximidades da casa. Os dois, após, tentaram limpar o sangue do local, não tendo conseguido. O pai,, então levou os panos da limpeza e os jogou no poço. Viu, também, que o pai havia pego do chão uma machadinha, suja de sangue e a colocado em uma sacola plástica,guardando-a na belina.O pai saiu dirigindo o santana com os corpos e ele a belina. Rumaram para a Rodovia da serra. Já era madrugada. Não viram ninguém e nem um carro pelo caminho. No local escolhido, o pai parou o santana virado para o penhasco. Foi até a belina e pegou no porta-malas duas garrafas pet de gasolina. Espalhou o combustível por dentro do carro e colocou fogo. O menino o ajudou a empurrar o carro para o penhasco, que desceu incendiando. Voltaram para casa, mas, antes, o pai, que agora dirigia a belina, parou às margens do riacho, que corta a cidade, e jogou a sacola com a machadinha nas águas. Ele relatou, ainda, que jurou para o pai guardar este segredo. Senti que o garoto precisava falar daquela noite, aquilo tudo estava o angustiando, desde o ocorrido. Com este depoimento, poderia conversar com o delegado e solicitarmos, no Fórum, a prisão do suspeito, que agora era acusado. O delegado conversou com o promotor para que fosse tomada uma atitude acerca do menor e ele foi liberado para ficar com a mãe.

     O mandado de prisão preventiva contra o acusado foi concedido e expedido. De posse dele, com a ajuda e companhia do filho mais velho, fomos à casa de parentes e amigos do procurado, para tentar prendê- lo, nas cidades de Guaiba e Canoas. Havia passado uma semana, e nada de encontrá- lo. Já não tínhamos onde procurar por ele, até que, em uma quinta- feira, o filho mais velho foi à Delegacia, dizendo que seu pai havia lhe telefonado e que queria encontrá-lo na cidade de Canoas, em um estacionamento de caminhões, naquela tarde.Fomos para lá. Na entrada do estacionamento, que era um pátio enorme de uma empresa transportadora, apesar do grande número de caminhões, vimos a belina do acusado estacionada. Estacionei a viatura ao lado de um caminhão, que a escondeu. Descemos e fomos em direção ao carro do acusado, olhei para seu interior e vi que ele estava lá, dormindo no banco do motorista. Fui até ele e o acordei, olhou para mim, meio sonolento...pedi que ele descesse e colocasse suas mãos no capô. Ele não demonstrava surpresa e obedeceu. Revistei-o e o algemei, informando que estava sendo preso pelos homicídios. Coloquei o preso no banco do passageiro e voltei para a cidade. O filho dele trouxe a belina. No caminho, contou que, naquela noite, iria pegar carona em um caminhão e fugir para São Paulo. Perguntei se ele recordava o que havia me dito no boteco, na noite dos homicídios. Ele disse que sim. Perguntei o que tinha ocorrido na noite das mortes. Ele se emocionou, me olhou e começou a contar. Estava devendo R$ 750,00 para o agiota e não estava conseguindo pagar nem os juros. Na tarde daquele dia, foi procurado pelo homem, que estava acompanhado do filho e da mulher, e cobrado. Disse que não poderia pagar e foi ameaçado e humilhado pelo morto. Sabia que todas as sextas- feiras ele fazia cobranças. Resolveu ir à casa dele, naquela noite, negociar sua dívida e tentar conseguir mais dinheiro emprestado. Em torno das 21 horas, estacionou a belina na entrada da propriedade da família. Foi até a garagem, onde estava o homem. Acabou discutindo com ele a respeito de sua dívida e teve um novo empréstimo negado. Pediu o macaco do carro dele emprestado. O homem abriu o porta-malas do santana. Viu na parede da garagem uma machadinha dependurada, a pegou e golpeou o homem na cabeça, na nuca, quando ele estava abaixado pegando o macaco.O homem correu cambaleando em direção à casa. Foi atrás e o golpeou de novo na cabeça, na entrada da cozinha. A mulher que lá estava, saiu para fora. Quando ela viu o marido caído e o assassino com a machadinha na mão, retornou para dentro. Ele entrou atrás dela e a golpeou, também na cabeça. Ela caiu, e ele a golpeou outras vezes, todas em sua cabeça. Vendo que o garoto estava paralisado, sentado à mesa, onde fazia sua lição de casa, não podia deixar testemunhas, resolveu matá- lo também. Olhou o interior dos armários da cozinha e encontrou, em uma gaveta, o caderno, onde o agiota anotava sua contabilidade. Resolveu rasgar e levar a metade da folha onde constava sua dívida. Pegou três cheques de terceiros que estavam no interior do caderno. Quando voltava para casa, teve a ideia de pegar seu filho e retornar, colocar os corpos no santana e levar o veículo até a rodovia da serra e fazer com que tudo parecesse um acidente. Esta parte da história foi igual à contada por seu filho. Como contra ele não havia suspeita, resolveu gastar um dos cheques no mercado. Nem imaginava que a dona do cheque iria cancelá- lo. Na manhã do dia em que fugiu do local, onde estava trabalhando, foi procurado pelo comerciante, o qual deu o cheque. Este o ameaçou dizendo que, se não recebesse até o meio- dia, iria à polícia e o entregaria. Chegamos à delegacia, formalizei seu depoimento e, após, o deixei no presídio. Meses depois, após ser julgado, foi condenado pelas mortes e roubo dos cheques.

    Passado algum tempo, após a condenação do matador, seu filho mais velho, que tanto cooperou comigo na prisão do pai, morreu em um acidente, na rodovia da serra, em uma curva. O veículo que ele dirigia colidiu de frente contra um caminhão, que vinha em sentido contrário. O carro incendiou e seu corpo ficou carbonizado. Lamentei muito. Fui trabalhar em outra cidade e anos depois fiquei sabendo que o filho mais novo do assassino, que havia ajudado o pai, entrou para o crime e acabou morrendo. Ele havia roubado uma moto e na fuga colidiu contra um poste. O “sargento Garcia”, deve agora estar solto. Os anos se passaram e sua pena de reclusão já deve ter terminado. Não morreu na cadeia, como me disse que deveria acontecer com o filho da puta que matou a família. Até hoje penso e gostaria de saber quem pagou o advogado para ele no julgamento...ele aliviou financeiramente muita gente...

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