Conto 1
Três Mortes e uma Dívida
Acordei
com o celular tocando, levantei, olhei para o relógio, eram 7 horas,
manhã fria de um sábado. Trabalhava, naquela cidade pequena,
sozinho, lugar de origem alemã, tranquilo, pacato, sem muitas
emoções, apenas ocorrências básicas. Atendi o telefone. Era um
PM, me disse que estavam precisando que fosse até a Localidade do Salto,
porque uma família havia sumido e no local tinha vestígios de
sangue. Fui para lá, ficava há cerca de 10 quilômetros de onde
morava. Era no interior, zona rural, em frente à propriedade havia
várias pessoas curiosas, moradores da redondeza. Dois policiais
militares isolavam a entrada. Um deles, o PM Peixoto veio até mim e
disse, que ali moravam um homem, sua mulher e um filho. Ele relatou
que, naquela manhã, a professora do garoto, que tinha nove anos, foi
ali, porque era o aniversário da criança e ela estaria ajudando a
organizar a festa de aniversário, que seria na sociedade da
comunidade, naquela tarde. O garoto iria comemorar seus nove anos.
Falei com a professora, que era bastante jovem, ela repetiu o que o
PM havia me dito e ainda disse, que foi até a cozinha e que
encontrara a porta aberta, por isto entrou. Não encontrou ninguém e
ao ver que na cozinha tinha manchas de sangue no chão e nas paredes,
resolveu deixar o local e ir até um vizinho ligar para a polícia.
Ela também achou estranho que o carro santana da família não
estava na garagem. Entrei na propriedade, fui até a cozinha,
acompanhado de Peixoto, entrei e vi gotas de sangue nas paredes e no
chão, o cômodo era pequeno.O sangue do piso estava espalhado, como
que se tivessem tentado limpar com um pano úmido. Sei que gotas de
sangue, quando atingem a parede, é porque alguém foi golpeado na
cabeça. Pela altura das manchas a pessoa golpeada estaria em pé. Na
mesa havia um caderno aberto e lápis espalhados, olhei para ele e
notei que era da criança, que deveria estar fazendo a lição, olhei
para a folha que escrevia, vi que não havia terminado seu tema de
casa. Em um dos balcões, ao lado do fogão, tinha um portarretrato
do filho, uma garoto pequeno, camiseta do grêmio; pela foto dava
para ver que era uma criança saudável e feliz. Neste balcão estava
um outro caderno, tipo universitário, percebi que uma página estava
rasgada na metade. Ao folhear, vi que havia nomes e valores anotados
ao lado. Peixoto comentou que o pai era um agiota conhecido na
região, que emprestava dinheiro a juros. O restante da residência
estava normal, as camas estavam arrumadas, como se ninguém houvesse
dormido na noite. O outro PM, Santana, chegou até nós e disse que
ao lado do poço, que ficava próximo à casa, tinha um balde e em
seu interior um pouco de água avermelhada e um pano. Olhamos para
dentro do poço e vimos que havia outros panos lá dentro e sangue.
Pedi para que os PMS chamassem os bombeiros, para que fosse olhado o
interior do poço. Da cozinha até a garagem, que ficava independente
da casa, há cerca de 10 metros, tinha, a partir da porta, um caminho
de brita. Segui por este caminho, olhos firmes no chão, olhando as
pedras de brita, vi que havia gotas de sangue, que seguia por este
trilho. Na garagem, próximo à porta, que estava aberta,havia um
macaco de carro jogado no chão e um pouco de sangue. Logo em
seguida, chegou ao local uma viatura dos bombeiros, vinda de outra
cidade. Chegaram rápido. Dois soldados desceram e conversaram
comigo, expliquei a eles a situação do poço. Voltaram para a
viatura, pegaram cordas, roupas apropriadas e foram para o local.
Olhei para o relógio, eram agora 9 horas. Fui até lá e acompanhei
o trabalho dos bombeiros. Um deles havia entrado no poço, que não
era fundo, parecia ter cerca de 10 metros. Os panos que lá estavam
foram tirados. O bombeiro que havia entrado, gritou que não tinha
nenhum corpo lá. Fui com os bombeiros até a entrada da propriedade,
quando assinava a ficha de ocorrência deles, a justificativa do
deslocamento, chegou até nós um morador vizinho. Ele disse que
havia ouvido comentários, durante aquela manhã, que na rodovia que
liga a cidade à serra, um veiculo incendiando havia descido um
penhasco. Os bombeiros disseram que não foram chamados para nenhum
acidente naquela rodovia na noite ou madrugada anterior. Os Policiais
Militares disseram nada saber. Discutimos as várias possibilidades
deste fato e do que foi relatado pelo vizinho e resolvemos dar uma
olhada na rodovia. Pedi que os Policiais Militares continuassem no
local, fazendo o isolamento. A viatura do corpo de bombeiros saiu
primeiro. Questionei os vizinhos mais próximos, que diseram não
saberem de nada, que nenhum barulho escutaram e nada sabiam do que
havia acontecido.
Liguei
para o Delegado plantonista expliquei para ele o que estava
acontecendo, e fui para a rodovia. Ela tem várias curvas e segue em
direção à serra. Partindo da cidade, no lado direito, há
barrancos e penhascos. No deslocamento, ia pensando no cenário que
vi na propriedade da família desaparecida, alguma morte com certeza
ocorrera. Me perguntava-” será que mataram todos os três”. Ao
fazer uma curva à esquerda, bastante acentuada, quando a venci, vi a
viatura dos bombeiros estacionada no acostamento. Os dois soldados
gesticulavam e olhavam para baixo, cheguei até eles e vi, sem
dúvidas, havia um carro incendiado, totalmente queimado, há uns 15
metros ladeira abaixo. Um dos bombeiros desceu por uma corda, que foi
ancorada na caminhonete deles. Ao retornar, este bombeiro relatou que
era um veículo santana, totalmente queimado e, na sua proximidade,
fora do carro, havia três corpos totalmente carbonizados. Um era
pequeno, de uma criança. Pensei, lá estava a família sumida. Olhei
a rodovia, não havia sinais de derrapagem ou freada. Foi acionada
uma outra viatura dos bombeiros, era preciso mais homens para que os
corpos e o veículo fossem retirados. Acionei por telefone a perícia
para a casa. Havia, agora, a certeza de um crime. Os corpos foram
içados por cordas. Ao olhá-los dava para ver que foram mortos,
golpeados por algo. Mesmo totalmente carbonizados dava para ver as
lesões que sofreram. Lembrei-me que o pai era agiota, este poderia
ser o motivo. Lembrei- me, também, do caderno e as anotações de
nomes e valores. Poderia começar por aí a investigação. Olhei o
relógio já eram 16 horas. Voltei para a casa das vítimas. Os
corpos foram encaminhados para a necropsia. Iria aguardar na
propriedade a chegada da perícia, que viria de Porto Alegre.
Novamente, na propriedade da família, conversei com um irmão da
mulher morta. Ele me relatou que ela era adotada e que o menino era
também adotado. O marido era filho único. Segundo ele, a família
vivia da agiotagem. O pai emprestava dinheiro a juros e sempre que ia
fazer uma cobrança, levava a mulher e o filho. Ele era insistente
com seus devedores. Eles tinham muito dinheiro emprestado. Viviam uma
vida simples, o veículo santana era antigo e a casa sem conforto
nenhum, somente o essencial. A perícia foi feita, um dos peritos me
informou que na cozinha havia ocorrido uma luta, que o menino
possivelmente estaria fazendo os temas da escola e que um deles veio
machucado da garagem em direção à casa. Agradeci ao trabalho deles
e foram embora. Já não havia mais nada, por enquanto, a fazer lá.
Dispensei os PMS, que assim como eu estavam cansados. Ainda havia em
frente à propriedade um número grande de curiosos. Já eram quase
20 horas. Fui para a Delegacia fazer o BO, a apreensão do caderno
com as anotações de nomes e valores e relatar ao Delegado o que
estava acontecendo até o momento. Fumei o último cigarro, precisava
comprar mais. Olhei o relógio, eram 22 horas, fechei a Delegacia. Só
havia um lugar aberto naquele horário, onde poderia comprar meu
tabaco, fui para lá.
Entrei
no boteco e vi que havia três homens sentados à uma mesa, jogavam
cartas e bebiam cervejas. Fui até o balcão e pedi uma carteira de
cigarros, da marca que fumo. Um dos homens levantou e me disse: -
“Espero que encontre quem matou a família, matar uma criança
daquele jeito, tomara que o filha da puta que fez isto morra na
cadeia”. E ele quis saber mais detalhes. Olhei para ele, vi que
era um homem alto, gordo e forte, parecia o sargento Garcia da Série
Zorro. Claro era de origem alemã, tinha bigodes ralos, já havia
visto ele pela cidade. Respondi qualquer coisa e sai. Fui para
casa.Tentei comer alguma coisa, não havia ingerido nada o dia todo.
Fumara uma carteira de cigarros. Tentei dormir, não consegui. Liguei
para o DML e um funcionário, auxiliar de perícia confirmou que as
vítimas haviam sido mortas a golpes de um objeto contundente. O
relógio em meu pulso marcava 1 hora. Nada de sono. Resolvi voltar à
propriedade das vítimas. Pensei, às vezes, o assassino volta ao
local do crime. Agora tinha conhecimento que a arma do crime era um
objeto contundente. Fui para lá. A propriedade ficava às margens de
uma rua asfaltada, escuridão total, as casas vizinhas eram longe, a
mais próxima ficava do lado esquerdo, eram propriedades como sítios.
Estacionei a viatura em frente à entrada da propriedade. Observei o
local fumando um cigarro. Meus pensamentos estavam a mil. Olhei em
direção à casa e tive a vaga sensação de ver um vulto. Apaguei o
cigarro, saquei minha pistola e fui em direção à casa. Escutei
barulhos na cozinha. Dei a volta, resolvi chegar pelo outro lado, se
houvesse alguém lá dentro, e se sabia que eu estava também no
local, fugiria por este lado, devido à vegetação. Olhei para a
cozinha, alguém apagou uma lanterna. Havia cochichos. Fui me
aproximando da porta, com o corpo colado na parede. Quando cheguei na
quina da parede que estava, lateral à porta da cozinha, vi três
pessoas saindo. Gritei para que parassem e disse que era polícia.
Alguém, que não era nenhum dos três que estavam na minha frente,
correu para o mato saindo do galpão, localizado na parte de baixo do
terreno. Os três ficaram imóveis. Mandei que fossem para a parede e
ficassem em posição de revista. Obedeceram. Revistei um por um e
lembrei que havia visto eles na frente da casa naquele dia.
Questionei o que eles estavam fazendo ali. Responderam que deviam
dinheiro para o morto e estavam procurando seus cheques dados como
garantia de empréstimos. Não queriam ser vistos como suspeitos e
não tinham nada a ver com as mortes, eram amigos e vizinhos da
família. Levei-os até a viatura, anotei seus nomes e solicitei uma
viatura da Brigada Militar, para que me auxiliasse na condução
deles até a DP. Terminei a noite ouvindo-os. Tive a certeza de que
nenhum deles estava envolvido nas mortes. Os liberei. Sabia que as
dívidas para com o morto poderia ser um motivo para as mortes, não
foi localizado nenhum cheque ou valores na casa naquele dia, apenas o
caderno. Examinei ele, havia muitos nomes, inclusive de empresários
e os valores anotados eram altos. Peguei uma folha e anotei os nomes
com os valores devidos e os juros pagos, colocando primeiro os
valores mais altos. Precisava ouvir todos. O assassino tinha que
estar entre estes 50 nomes. Liguei para o irmão da mulher que fora
assassinada e pedi para que ele me encontrasse na propriedade naquela
manhã. Após, fui até o posto da Brigada Militar e pedi ao
comandante que me cedesse dois soldados. Precisava fazer uma revista
minuciosa na propriedade.
Levei
os dois PMS comigo. Quando chegamos, lá já estava o irmão da
vítima. Na frente, vários curiosos, alguns repórteres locais e da
região faziam entrevistas com os vizinhos e tiravam fotos. Não quis
falar com nenhum deles, dizer o quê? Começamos a revista pela casa.
A única coisa que chamou minha atenção é que em uma das gavetas
de uma cômoda, em um quarto, onde havia várias bugigangas, tinha um
absorvente feminino sujo e no fundo desta gaveta uma quantia em
dinheiro antigo, como se tivesse sido lá esquecido. Após a revista
da casa, fomos para o galpão, onde havia ferramentas, latas vazias e
outros objetos da lida no sítio. Em uma das paredes havia
prateleiras, e uma delas me chamou atenção, porque vi uma lata de
tinta, já meio enferrujada e em cima dela um outro absorvente
feminino sujo. Nenhum de nós tocou nesta lata. Por nojo daquele
absorvente sujo. Terminamos de revistar toda a propriedade, não
encontramos valores em dinheiro, a não ser a quantia antiga, nenhum
cheque, nada, nem algo que poderia ser a arma dos crimes. O enterro
seria à tarde. Liberei o irmão para o final do velório e fui comer
alguma coisa no centro da cidade com os PMS. Durante o almoço,
discutimos as mortes, o motivo com certeza era agiotagem, poderia ser
alguém que estava se sentindo pressionado pelo homem. Ele emprestava
um montante e todos os meses cobrava os juros. Comentamos, também,
sobre os absorventes sujos, na gaveta e na lata. Aquela velha lata,
que nem um de nós teve a coragem de olhar, por causa de um
absorvente sujo em cima. Chegamos à conclusão de que devíamos
voltar e olhar em seu interior. Resolvemos voltar, mas depois do
almoço, é claro. Terminamos a refeição e voltamos à propriedade,
no galpão, pegamos um graveto e tiramos o absorvente de cima da
lata. Peguei-a abri...em seu interior havia vários cheques, mais de
cem. Todos preenchidos e assinados por pessoas diversas e com as
datas em branco. Somei os valores e calculei cerca de R$ 150.000,00.
Muitos donos destes cheques já havia visto no caderno, seus nomes.
Aquele absorvente era algo que evitaria que alguém, que entrasse
ali, deixasse de olhar a lata.
Dois meses das mortes se passaram. Ouvi todos da lista que tinha.
Todos pareciam suspeitos, mas provas contra alguns deles não havia,
apenas as dívidas, que possuíam com o pai da família morta. Muitos
pareciam estar felizes, sabendo que não teriam que pagar mais nada
do dinheiro emprestado, nem os juros e nem o montante: um alívio
financeiro para eles. Não havia mais na cidade comentários
intensos, como antes, a respeito das mortes. A imprensa, que antes
ligava ou ia à Delegacia, quase todos os dias, buscando novidades do
caso, sumiu. Certo dia, no começo da tarde, chegou à Delegacia, um
comerciante, que tinha consigo um cheque de uma mulher. Relatou-me
que um cliente havia ido ao seu estabelecimento e feito compras,
pagando com este cheque, há uma semana atrás. Como o homem era seu
conhecido e consertava aparelhos de refrigeração, e disse ter
recebido o cheque como pagamento de um serviço, ele aceitou e até
deu troco. O comerciante depositou o cheque, mas não foi compensado,
porque havia sido cancelado pela correntista. Como a cidade era
pequena, este homem localizou a dona do cheque e foi informado, por
ela, que esta folha havia sido dada como garantia em um empréstimo
que fizera com o pai da família morta. O homem me forneceu o nome de
seu cliente. Consultei o nome no sistema policial, puxei a foto e
gelei. Era o Sargento Garcia! Aquele que havia me interpelado no
boteco, na noite dos crimes, e dito que o matador deveria apodrecer
na cadeia. Anotei o endereço e fui para a casa dele, que ficava no
interior do município. Lá só estava um dos filhos dele, de 13
anos. Disse que os pais estavam trabalhando. Perguntei onde o pai
trabalhava. Respondeu que o pai estava fazendo um serviço em uma
empresa de laticínios em uma outra cidade próxima e que ele só
regressaria à noite. Perguntei, ainda, que carro o pai estava
usando. O filho respondeu que era uma belina prata. Sabia onde era a
empresa a que ele se referia. Ficava há 20 quilômetros, rumei para
lá. Após dirigir por estradas asfaltadas e de chão, cheguei à
empresa. Lá, fui informado de que o suspeito havia terminado o
serviço, recebido por ele e pedido mais uma quatia adiantada,
alegando que pagaria em um outro serviço. Ele havia saído apressado
e rumado no sentido Porto Alegre, dirigindo sua belina prata. Liguei
para a Polícia Rodoviária Federal e pedi que os policiais ficassem
em alerta e tentassem abordar o suspeito. Voltei para casa dele e
aguardei o filho mais velho e a esposa regressarem. Ela me informou
que ele havia ligado para seu serviço e dito que precisava sumir,
que a polícia estava atrás dele por causa de um cheque. Não sei
como ele já sabia que estava sendo procurado. O filho mais velho me
contou que das mortes nada sabia e que iria ajudar no que fosse
preciso para localizar seu pai. Expliquei que ele era apenas um
suspeito. Eles ainda disseram que era costume o pai sair à noite
para fazer algum conserto emergencial para algum cliente e que não
sabiam nada do cheque. Confirmaram que o pai conhecia a família
morta e já havia pedido dinheiro emprestado para o homem. O filho
menor de 13 anos me pareceu meio estranho, meio assustado. Queria
falar com ele, mas não naquele momento. Intimei todos para
comparecerem à Delegacia de Policia no outro dia. Passei o restante
do dia e a noite a vigiar a casa do suspeito de longe, desejando o
retorno dele. Mas ele não veio. Senti que, finalmente, tinha algo
concreto, um suspeito, um motivo, já que o nome dele não constava
na lista e poderia estar no pedaço da folha do caderno que faltava e
o cheque que ele havia dado em pagamento, estava na posse do morto.
No
horário marcado, a mulher e os dois filhos do suspeito compareceram
à delegacia. Ouvi primeiro a mulher, que sustentou o que havia me
dito no dia anterior. Disse, também, que seu marido não havia mais
entrado em contato. O filho mais velho confirmou oque havia dito no
dia anterior, e para a noite dos crimes relatou que estava na escola
e, após, foi para a casa de amigos com a namorada.O menino de 13
anos, ao ser ouvido, ficou bastante nervoso. Confessou que, na noite
das mortes, estava dormindo e que seu pai o acordou, dizendo que
precisava de sua ajuda. Colocou o menino no carro e foi com ele para
a casa das vítimas. No caminho, o pai lhe disse o que tinha feito,
que havia matado três pessoas e queria que ele o ajudasse a colocar
os corpos no carro da família, e que levasse o carro dele até a
rodovia da serra, para que as mortes parecessem um acidente. O garoto
sabia dirigir, o pai havia lhe ensinado. Disse, também, que na
propriedade da família o corpo da mulher e da criança estavam na
cozinha, o do homem próximo à porta , na pequena área. O menino
ajudou o pai a colocar os corpos no santana, que foi levado até as
proximidades da casa. Os dois, após, tentaram limpar o sangue do
local, não tendo conseguido. O pai,, então levou os panos da
limpeza e os jogou no poço. Viu, também, que o pai havia pego do
chão uma machadinha, suja de sangue e a colocado em uma sacola
plástica,guardando-a na belina.O pai saiu dirigindo o santana com os
corpos e ele a belina. Rumaram para a Rodovia da serra. Já era
madrugada. Não viram ninguém e nem um carro pelo caminho. No local
escolhido, o pai parou o santana virado para o penhasco. Foi até a
belina e pegou no porta-malas duas garrafas pet de gasolina. Espalhou
o combustível por dentro do carro e colocou fogo. O menino o ajudou
a empurrar o carro para o penhasco, que desceu incendiando. Voltaram
para casa, mas, antes, o pai, que agora dirigia a belina, parou às
margens do riacho, que corta a cidade, e jogou a sacola com a
machadinha nas águas. Ele relatou, ainda, que jurou para o pai
guardar este segredo. Senti que o garoto precisava falar daquela
noite, aquilo tudo estava o angustiando, desde o ocorrido. Com este
depoimento, poderia conversar com o delegado e solicitarmos, no
Fórum, a prisão do suspeito, que agora era acusado. O delegado
conversou com o promotor para que fosse tomada uma atitude acerca do
menor e ele foi liberado para ficar com a mãe.
O
mandado de prisão preventiva contra o acusado foi concedido e
expedido. De
posse dele, com a ajuda e companhia do filho mais velho, fomos à
casa de parentes e amigos do procurado, para tentar prendê- lo, nas
cidades de Guaiba e Canoas. Havia passado uma semana, e nada de
encontrá- lo. Já não tínhamos onde procurar por ele, até que, em
uma quinta- feira, o filho mais velho foi à Delegacia, dizendo que
seu pai havia lhe telefonado e que queria encontrá-lo na cidade de
Canoas, em um estacionamento de caminhões, naquela tarde.Fomos para
lá. Na entrada do estacionamento, que era um pátio enorme de uma
empresa transportadora, apesar do grande número de caminhões, vimos
a belina do acusado estacionada. Estacionei a viatura ao lado de um
caminhão, que a escondeu. Descemos e fomos em direção ao carro do
acusado, olhei para seu interior e vi que ele estava lá, dormindo no
banco do motorista. Fui até ele e o acordei, olhou para mim, meio
sonolento...pedi que ele descesse e colocasse suas mãos no capô.
Ele não demonstrava surpresa e obedeceu. Revistei-o e o algemei,
informando que estava sendo preso pelos homicídios. Coloquei o preso
no banco do passageiro e voltei para a cidade. O filho dele trouxe a
belina. No caminho, contou que, naquela noite, iria pegar carona em
um caminhão e fugir para São Paulo. Perguntei se ele recordava o
que havia me dito no boteco, na noite dos homicídios. Ele disse que
sim. Perguntei o que tinha ocorrido na noite das mortes. Ele se
emocionou, me olhou e começou a contar. Estava devendo R$ 750,00
para o agiota e não estava conseguindo pagar nem os juros. Na tarde
daquele dia, foi procurado pelo homem, que estava acompanhado do
filho e da mulher, e cobrado. Disse que não poderia pagar e foi
ameaçado e humilhado pelo morto. Sabia que todas as sextas- feiras
ele fazia cobranças. Resolveu ir à casa dele, naquela noite,
negociar sua dívida e tentar conseguir mais dinheiro emprestado. Em
torno das 21 horas, estacionou a belina na entrada da propriedade da
família. Foi até a garagem, onde estava o homem. Acabou discutindo
com ele a respeito de sua dívida e teve um novo empréstimo negado.
Pediu o macaco do carro dele emprestado. O homem abriu o porta-malas
do santana. Viu na parede da garagem uma machadinha dependurada, a
pegou e golpeou o homem na cabeça, na nuca, quando ele estava
abaixado pegando o macaco.O homem correu cambaleando em direção à
casa. Foi atrás e o golpeou de novo na cabeça, na entrada da
cozinha. A mulher que lá estava, saiu para fora. Quando ela viu o
marido caído e o assassino com a machadinha na mão, retornou para
dentro. Ele entrou atrás dela e a golpeou, também na cabeça. Ela
caiu, e ele a golpeou outras vezes, todas em sua cabeça. Vendo que
o garoto estava paralisado, sentado à mesa, onde fazia sua lição
de casa, não podia deixar testemunhas, resolveu matá- lo também.
Olhou o interior dos armários da cozinha e encontrou, em uma gaveta,
o caderno, onde o agiota anotava sua contabilidade. Resolveu rasgar e
levar a metade da folha onde constava sua dívida. Pegou três
cheques de terceiros que estavam no interior do caderno. Quando voltava
para casa, teve a ideia de pegar seu filho e retornar, colocar os
corpos no santana e levar o veículo até a rodovia da serra e fazer
com que tudo parecesse um acidente. Esta parte da história foi igual
à contada por seu filho. Como contra ele não havia suspeita,
resolveu gastar um dos cheques no mercado. Nem imaginava que a dona
do cheque iria cancelá- lo. Na manhã do dia em que fugiu do local,
onde estava trabalhando, foi procurado pelo comerciante, o qual deu o
cheque. Este o ameaçou dizendo que, se não recebesse até o meio-
dia, iria à polícia e o entregaria. Chegamos à delegacia,
formalizei seu depoimento e, após, o deixei no presídio. Meses
depois, após ser julgado, foi condenado pelas mortes e roubo dos
cheques.
Passado
algum tempo, após a condenação do matador, seu filho mais velho,
que tanto cooperou comigo na prisão do pai, morreu em um acidente,
na rodovia da serra, em uma curva. O veículo que ele dirigia colidiu
de frente contra um caminhão, que vinha em sentido contrário. O
carro incendiou e seu corpo ficou carbonizado. Lamentei muito. Fui
trabalhar em outra cidade e anos depois fiquei sabendo que o filho
mais novo do assassino, que havia ajudado o pai, entrou para o crime
e acabou morrendo. Ele havia roubado uma moto e na fuga colidiu
contra um poste. O “sargento Garcia”, deve agora estar solto. Os
anos se passaram e sua pena de reclusão já deve ter terminado. Não
morreu na cadeia, como me disse que deveria acontecer com o filho da
puta que matou a família. Até hoje penso e gostaria de saber quem
pagou o advogado para ele no julgamento...ele aliviou financeiramente
muita gente...
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